Justiça

GDF leva falas de Lula ao STF e acusa União de usar BRB como moeda eleitoral

Ministro Luiz Fux no STF analisa ação do GDF contra União por crédito ao BRB
Ministro Luiz Fux, relator da ação onde GDF acusa União de uso eleitoral do BRB.

O Governo do Distrito Federal protocolou no Supremo Tribunal Federal um ofício que transforma declarações de palanque em peça processual. O alvo: a recusa do Planalto em garantir uma operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões para socorrer o Banco de Brasília. A tese central é direta — a negativa não teria base técnica, mas sim cálculo eleitoral.

O documento, endereçado ao ministro Luiz Fux, relator da ação, chega dias depois de Lula afirmar em comício que “não vai dar dinheiro para o BRB”. A Procuradoria do DF argumenta que a fala do presidente, feita ao lado de candidatos aliados, antecipa a posição da União no julgamento e viola a impessoalidade administrativa.

O que está em jogo não é aporte, mas garantia

Há uma distinção jurídica que o GDF faz questão de sublinhar: não se pede dinheiro do Tesouro, nem empréstimo da União ao banco. O pleito é para que o governo federal atue como fiador de uma operação estruturada com recursos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O pagamento caberia integralmente ao Distrito Federal.

Em maio, um acordo homologado no próprio STF previa que os maiores bancos do país dessem a garantia, lastreados em contragarantias vinculadas ao FPE e ao FPM. O desenho não saiu do papel. Sem caixa próprio, o GDF recorre agora à fiança soberana como última alternativa.

A origem do rombo e a troca de acusações

O buraco nas contas do BRB decorre de operações com o Banco Master, de Daniel Vorcaro. Lula atribui a quebra à “ligação entre Ibaneis e Vorcaro” e cita R$ 12 bilhões em títulos que “não existiam”. A governadora Celina Leão (PP) rebateu nas redes: o presidente estaria tentando “quebrar o BRB” por motivação partidária.

No ofício ao STF, a Procuradoria destaca que a manifestação de Lula ocorreu em ato de campanha, com pedido explícito de voto para o candidato petista ao Buriti. Não foi entrevista, nem pronunciamento oficial. Para o GDF, isso reforça o caráter político da resistência.

Números que pesam na decisão

  • R$ 6,6 bi — teto da operação com garantia do FGC
  • 40% — intenção de voto de Celina Leão (Datafolha)
  • 16% — Leandro Grass (PT), empatado tecnicamente com Arruda (17%)
  • Nota C — Capag do Distrito Federal (escala A a D)
  • 15 a 45 dias — prazo dado por Fux para União, BC e FGC se manifestarem

O entrave técnico que o Planalto opõe

O Ministério da Fazenda sustenta que o DF não preenche os requisitos para garantia soberana. O termômetro usado é a Capag — Capacidade de Pagamento — que hoje classifica a unidade da federação com nota C. Pela regra atual, apenas entes com nota A ou B acessam esse instrumento.

A contra-argumentação do GDF: a operação não envolve risco fiscal direto para a União, pois os recursos vêm do FGC e o devedor é o próprio Distrito Federal. A garantia seria apenas um facilitador de captação de mercado, não um cheque em branco.

Por que o desfecho pode demorar

Fux concedeu prazos sucessivos de 15 dias — somando até 45 — para que a Advocacia-Geral da União, o Banco Central e o FGC apresentem suas posições. Só após essas manifestações o ministro deve decidir sobre o pedido de liminar ou levar o caso ao plenário.

Enquanto isso, o BRB segue operando sob acordo de acionistas que exige capitalização. A controladora (o GDF) não tem como aportar sozinha. O impasse mantém a instituição em compasso de espera, com reflexos na concessão de crédito local e na confiança de depositantes.

O que observar nas próximas semanas

Três movimentos merecem atenção: a fundamentação técnica que a AGU apresentará para justificar a recusa; a posição do Banco Central sobre a solidez do arranjo com o FGC; e eventuais sinalizações do relator sobre a urgência do caso. Se Fux entender que há risco de dano irreparável ao sistema financeiro local, pode antecipar a análise. Do lado político, a campanha ao Buriti deve amplificar o tema — o que, paradoxalmente, pode pressionar tanto o STF quanto o Planalto a definirem a questão antes das urnas.