Uma nova pesquisa Datafolha coloca Lula e Flávio Bolsonaro empatados tecnicamente na corrida presidencial de 2026, com apenas três pontos de diferença — a menor distância registrada desde abril. O cenário desenha uma polarização intensa e sem favorito claro, forçando investidores e empresários a reavaliar riscos político-econômicos para os próximos dois anos.
O levantamento, realizado entre 15 e 17 de outubro com 2.001 eleitores em 125 municípios, tem margem de erro de dois pontos percentuais. Os números mostram estabilidade nas intenções de voto, mas a dinâmica por baixo da superfície revela movimentações que podem definir o jogo eleitoral.
O xadrez do primeiro turno: estabilidade que esconde tensão
No cenário estimulado, o presidente Lula (PT) mantém 39% das intenções, mesmo patamar de agosto. Flávio Bolsonaro (PL) sobe de 35% para 36%, encostando no petista. Considerando a margem de erro, a faixa de variação dos dois se sobrepõe completamente: Lula entre 37% e 41%; Flávio entre 34% e 38%.
O pelotão de trás segue embolado:
- Augusto Cury (Avante): 6% (varia de 4% a 8%)
- Ronaldo Caiado (PSD): 4% (2% a 6%)
- Renan Santos (Missão): 3% (1% a 5%)
- Romeu Zema (Novo): 2% (até 4%)
Brancos, nulos e “nenhum” somam 6%; indecisos, 3%. A fragmentação da terceira via impede, por ora, a emergência de um nome competitivo fora da polarização Lula vs. Bolsonaro.
Segundo turno: cinco simulações, um mesmo roteiro
O Datafolha testou cinco cenários de runoff. Em todos, Lula lidera numericamente, mas a margem de erro apaga a vantagem na maioria das disputas. Veja o retrato:
- Lula x Flávio Bolsonaro: 46% a 44% (empate técnico)
- Lula x Ronaldo Caiado: 46% a 42% (limite da margem)
- Lula x Romeu Zema: 48% a 39% (vantagem numérica clara)
- Lula x Renan Santos: 47% a 38% (fora da margem)
- Lula x Augusto Cury: 44% a 44% (empate exato)
O detalhe que chama atenção: contra Cury e Flávio Bolsonaro, a eleição está aberta. Contra Zema e Renan, Lula aparece mais confortável. Caiado ocupa uma zona cinzenta — tecnicamente empatado no limite, mas com viés de alta (subiu de 40% para 42% nas últimas rodadas).
Avaliação do governo: a “faca de dois gumes” para o incumbente
Paralelamente à corrida eleitoral, o Datafolha mede o termômetro da gestão atual. A aprovação do trabalho de Lula subiu para 48% (era 47%), enquanto a desaprovação caiu para 50% (era 51%). Pela primeira vez na série, a diferença entre quem aprova e quem desaprova é de apenas dois pontos.
Na classificação “ótimo/bom”, o governo oscila para 34% (era 32%). “Regular” cai para 23% (era 25%). “Ruim/péssimo” estaciona em 41%.
Para o mercado, esses números sinalizam que o governo não colhe dividendos eleitorais automáticos da popularidade — e que a rejeição alta (50%) funciona como teto duro para a reeleição ou para transferência de votos a um sucessor.
O que isso muda na mesa de decisão?
A estabilidade nas pesquisas reduz a volatilidade de curto prazo, mas alonga a incerteza estrutural. Com Lula e Flávio Bolsonaro colados, dois vetores opostos pressionam ativos brasileiros:
- Risco fiscal: pressão por expansão de gastos para defender a base eleitoral.
- Risco regulatório: incerteza sobre continuidade de marcos regulatórios (saneamento, energia, telecom) a depender do vencedor.
Empresários relatam que decisões de Capex de longo prazo estão sendo postergadas ou condicionadas a cláusulas de revisão pós-eleição. O câmbio e a curva de juros futuros já embutem prêmio de risco político elevado.
O que observar daqui para frente
Três variáveis devem ditar o ritmo das próximas pesquisas e, consequentemente, do mercado: a tramitação da reforma tributária no Senado (teste de articulação do governo), a evolução do desemprego e da renda real (termômetro do eleitor mediano) e a definição de candidaturas viáveis na centro-direita — hoje pulverizadas entre Caiado, Zema, Cury e Renan.
Se a terceira via não se consolidar até meados de 2025, a polarização Lula-Flávio tende a se cristalizar, transformando 2026 em um referendo sobre o modelo econômico vigente. Para quem aloca capital, o segredo não está em apostar no vencedor, mas em montar posições resilientes a ambos os cenários.
