Cultura

Feira do Livro de POA quebra tabu de 72 anos: o que a liderança feminina revela sobre o Brasil

Roseni Siqueira Kohlmann e Heloisa Pires Lima sorriem juntas na Feira do Livro de Porto Alegre 2024
Primeira liderança feminina dupla em 72 anos de história da Feira do Livro de POA.

Pela primeira vez em sete décadas, duas mulheres comandam simultaneamente os postos máximos da maior feira literária a céu aberto da América Latina. A 72ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre tem Roseni Siqueira Kohlmann na presidência da Câmara-Riograndense do Livro e Heloisa Pires Lima no patronato — marco histórico que expõe transformações profundas na cultura e no mercado editorial brasileiro.

O evento ocupa 17 dias de programação com mais de 700 atividades gratuitas. Mas o simbolismo ultrapassa a grade de atrações.

A patrona que carrega 72 anos de espera

Heloisa Pires Lima é a primeira mulher negra — e apenas a segunda pessoa negra — eleita patrona desde a criação da feira, em 1952. Antropóloga, educadora e autora dedicada à literatura infanto-juvenil, sua trajetória reflete a urgência de reposicionar narrativas em um estado onde 21% da população se declara negra, segundo dados do IBGE, mas cuja presença histórica nos espaços de decisão cultural foi sistematicamente apagada.

O papel do patrono vai além da representação ceremonial. A figura sintetiza os valores que a entidade promotora deseja celebrar: formação de leitores, diversidade editorial e impacto social da leitura. A escolha de Heloisa sinaliza que a instituição reconhece, enfim, que não existe democratização do livro sem diversidade de quem escreve, edita e cura.

Literatura infantil não é “coisa de criança” — é infraestrutura

O foco de Heloisa na produção para crianças e jovens não é detalhe menor. Estudos recentes correlacionam o acesso precoce a livros diversos com indicadores de desenvolvimento cognitivo, empatia e desempenho escolar futuro. Para investidores e gestores públicos, a equação é direta: leitores formados na infância tornam-se profissionais mais preparados, consumidores críticos e cidadãos ativos.

Mas a patrona impõe uma condição inegociável: “não adianta incentivar a leitura com livros racistas.” A frase resume um debate que o mercado editorial ainda evita enfrentar com profundidade. Obras que reforçam estereótipos ou apagam identidades não formam leitores — formam exclusão.

O que muda na prática para o ecossistema do livro

  • Editores ganham pressão concreta para diversificar catálogos e equipes de aquisição.
  • Bibliotecas e escolas recebem referencial qualificado para revisar acervos e listas de leitura obrigatória.
  • Patrocinadores passam a ter métricas de impacto social mais claras ao associar marcas a eventos com protagonismo representativo.
  • Autores negros e indígenas encontram validação institucional para narrativas próprias, não apenas como “temas” de editais pontuais.

A presidência de Roseni Siqueira Kohlmann à frente da Câmara-Riograndense do Livro completa o movimento: pela primeira vez, a gestão executiva e a representação simbólica caminham juntas, ambas ocupadas por mulheres. Não é coincidência — é consequência de articulações de base que vêm pressionando o setor há anos.

O que observar daqui pra frente

A 72ª edição termina, mas o precedente permanece. O mercado editorial brasileiro fatura bilhões anualmente, mas ainda concentra decisões em grupos homogêneos. A Feira de Porto Alegre — patrimônio imaterial da capital gaúcha — acaba de provar que representatividade nos postos de poder não é “pauta identitária”: é estratégia de relevância cultural e sustentabilidade econômica.

Para quem investe em educação, cultura ou comunicação, o recado é claro: eventos que ignoram a diversidade na curadoria e na gestão perdem conexão com o público real do país. A próxima edição já nasce sob outra régua. A pergunta que fica é quantas outras feiras, bienais e conselhos editoriais vão demorar mais 72 anos para entender o óbvio.