Economia

Chinesa Huaxin leva CSN Cimentos por R$ 12,7 bi: o que muda no jogo do cimento

Fábrica de cimento industrial com silos e chaminés, representando aquisição da CSN Cimentos pela Huaxin
Complexo industrial da CSN Cimentos, vendida para a chinesa Huaxin por R$ 12,7 bilhões.

A chinesa Huaxin Cement fechou a compra da CSN Cimentos por R$ 12,7 bilhões, redesenhando o mapa da indústria brasileira de materiais de construção. O valor supera as estimativas iniciais de mercado e sinaliza apetite estrangeiro por ativos pesados no país. A transação ainda depende de aval do Cade e de condições precedentes, mas já provoca ondas no setor.

Por que a Huaxin pagou esse prêmio

A CSN Cimentos detém capacidade instalada de 13 milhões de toneladas por ano, distribuída em fábricas no Sudeste e Nordeste. A malha logística — ferrovias, portos e terminais próprios — foi o ativo que mais pesou na avaliação dos chineses. Huaxin entra no Brasil não apenas por volume, mas por infraestrutura pronta para escoar produção.

O múltiplo implícito na operação gira em torno de 8,5 vezes o EBITDA estimado para 2024. Está acima da média histórica do setor, que roda entre 6 e 7 vezes. Analistas atribuem o prêmio à escassez de ativos de escala à venda e à urgência da CSN em reduzir alavancagem.

O efeito imediato na concentração de mercado

Com a aquisição, Huaxin torna-se o terceiro maior grupo cimenteiro do Brasil, atrás de Votorantim e InterCement. A fatia de mercado combinada salta para cerca de 12%. Em regiões como o Rio de Janeiro e partes de Minas Gerais, a participação local ultrapassa 30%, o que acende alerta no Cade.

Principais ativos que mudam de mãos:

  • Fábrica de Arcos (MG) — 4,2 mi t/ano
  • Fábrica de Volta Redonda (RJ) — 3,1 mi t/ano
  • Moagem de Santos (SP) — 2,0 mi t/ano
  • Fábrica de Alhandra (PB) — 1,8 mi t/ano
  • Terminal portuário próprio no Rio de Janeiro

O que a CSN ganha com a saída

Para a siderúrgica de Benjamin Steinbruch, a venda resolve duas frentes. Primeiro, o caixa: R$ 12,7 bi entram no balanço ainda em 2024, derrubando a dívida líquida/EBITDA de 3,2x para patamar abaixo de 2x. Segundo, o foco: a CSN retém mineração, siderurgia e logística, seus núcleos de geração de valor histórico.

A companhia manteve opção de recompra de 15% do capital por cinco anos, exercível a valor de mercado. Cláusula rara, desenhada para preservar vínculo estratégico caso o ciclo do cimento melhore.

Cade e o rito antitruste: o que vem pela frente

O processo entra em fase de análise de concentração horizontal. A Superintendência-Geral do Cade tem 240 dias, prorrogáveis por mais 90, para emitir parecer. Precedentes recentes — como a compra da LafargeHolcim pela CSN em 2021 — sugerem remédios estruturais: venda de moagens ou terminais em mercados sobrepostos.

Huaxin já sinalizou disposição para negociar ativos. O grupo chinês opera em 12 países e tem experiência em remedies antitruste na Europa e Ásia. O prazo para fechamento, se sem restrições, aponta para o primeiro trimestre de 2025.

Cenários para preços e concorrência

O mercado de cimento no Brasil cresceu 2,3% no primeiro semestre de 2024, puxado por infraestrutura e programas habitacionais. Com três grandes players controlando cerca de 65% da capacidade, o poder de precificação permanece elevado. A entrada de capital chinês pode trazer dois vetores opostos:

  • Pressão por margens: Huaxin tem custo de capital menor e pode alongar payback de investimentos.
  • Disciplina de capacidade: chineses historicamente evitam guerras de preço que destruam valor de ativo.

Para construtoras e distribuidores, a recomendação de analistas é monitorar reajustes anuais — tradicionalmente anunciados em janeiro — e condições comerciais de prazo e frete.

O que observar nos próximos 180 dias

Três marcos ditam o ritmo da integração: parecer do Cade, aprovação de bancos financiadores da CSN (credores têm cláusula de change of control) e licenças ambientais de transferência de titularidade. Huaxin já montou equipe de transição com 40 executivos, metade brasileira, metade chinesa.

O fechamento da operação será o termômetro para novas rodadas de M&A no setor. InterCement, com dívida reestruturada, eplayers regionais com ativos ociosos voltam ao radar de fundos e estratégicos. Quem leu até aqui sabe: o tabuleiro mexeu. O próximo lance sai do Cade.