Economia

Governo de SP gasta R$ 6 bi no centro: oportunidade ou armadilha urbana?

Nova sede administrativa do Governo de SP em construção nos Campos Elíseos, região central de São Paulo
Obra da nova sede do governo paulista nos Campos Elíseos, projeto de R$ 6 bilhões para 22 mil servidores

O governo de São Paulo iniciou a construção de sua nova sede administrativa nos Campos Elíseos, um projeto de R$ 6 bilhões para abrigar 22 mil servidores em um bairro que oscila entre a história dos barões do café e a tragédia da cracolândia. A obra levanta uma questão imediata: por que concentrar mais estrutura no centro quando 40 órgãos já operam na região e o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, será mantido?

A resposta não está no papel. O empreendimento não foi debatido durante a revisão do Plano Diretor de 2023, chegando como fato consumado a uma área que exige reparação, não apenas ocupação.

O que o projeto entrega — e o que ignora

No desenho arquitetônico, há méritos: térreo permeável, áreas livres e fachadas ativas seguem o manual contemporâneo de boas práticas. Mas o entorno conta outra história. A previsão de 4.000 vagas para automóveis contraria frontalmente o discurso de estímulo ao transporte coletivo em uma região servida por metrô e corredores de ônibus.

Há também o risco de especulação imobiliária expulsar moradores que já sobrevivem à vulnerabilidade extrema. Sem salvaguardas claras, o investimento público pode financiar a própria gentrificação que a cidade diz combater.

Três perguntas sem resposta clara

  • Como a concessionária privada que gerirá o complexo garantirá acessos públicos permanentes?
  • Que mecanismos impedirão a valorização predatória do solo ao redor?
  • Onde está o plano de realocação justa para famílias atingidas por desapropriações?

A prefeitura, até aqui, corre atrás do ritmo ditado pelo estado. Falta protagonismo na costura dos planos setoriais que já existem — inclusive a proposta da Porto Seguro para requalificar ruas e calçadas sem contrapartida financeira, rara iniciativa privada de interesse público.

O vazio de coordenação que pode custar caro

Transformar R$ 6 bilhões em urbanidade real exige mais que edifícios bonitos. Demanda negociação miúda, contínua e sem holofotes: moradores, comerciantes, empresas vizinhas e órgãos públicos alinhados em um plano de bairro vivo. Alô, sociedade civil — o convite está posto.

Sem essa costura, o centro ganha uma fortaleza administrativa, mas perde a chance de se recompor como território plural. O investimento está feito. O que vem agora define se será legado ou cicatriz.

O que observar nos próximos meses

Acompanhe a publicação do termo de concessão e suas cláusulas de uso do térreo. Verifique se a prefeitura apresentará um decreto de zoneamento especial para o entorno. E cobre a criação de um conselho gestor paritário com poder de veto — não apenas consultivo. O centro não comporta mais improvisos.