Justiça

CBF corta verba de observatórios contra racismo e LGBTfobia: o que muda no futebol

Logotipo da CBF sobre fundo de estádio vazio com gráficos de relatórios de discriminação cortados
CBF suspende financiamento a observatórios que monitoram racismo e LGBTfobia no futebol brasileiro

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) interrompeu o financiamento a dois dos principais instrumentos de monitoramento de discriminação no esporte nacional. A decisão afeta diretamente a publicação do Anuário da LGBTfobia e do Relatório de Discriminação Racial, referências para clubes, patrocinadores e formuladores de política pública.

O corte ocorre meses após o novo presidente, Samir Xaud, assumir o cargo com discursos públicos sobre inclusão. A contradição entre a retórica e a execução orçamentária expõe um vácuo de governança que pode custar caro à imagem da entidade e à segurança jurídica de parceiros comerciais.

O que estava em jogo e por que parou

Desde 2022, o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ produzia o Anuário do Observatório da LGBTfobia com aporte total da CBF. O documento sistematizava casos, mapeava iniciativas de inclusão e servia de base para ações educativas em federações e clubes. Em 2025, a entidade contribuiu parcialmente. Para a edição de 2026, a resposta oficial veio por e-mail: não há orçamento para patrocínios a terceiros.

Paralelamente, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol — 12 anos de histórico, quatro com apoio direto da confederação — teve seu acordo encerrado em 2024 sem renovação. A publicação referente a 2025 sairá sem recursos da CBF, com lançamento previsto na sede da Federação Gaúcha de Futebol.

Números que explicam o rompimento

  • 4 anos de convênio com o Observatório Racial encerrados em 2024
  • 3 edições do Anuário LGBTQ+ publicadas com dinheiro da CBF (2022 a 2024)
  • Maio de 2025: posse de Samir Xaud, então mais jovem presidente da história da entidade
  • Junho de 2025: nota oficial no site da CBF promete “protagonismo a projetos voltados à sustentabilidade e diversidade”
  • Final de 2025: coletivo LGBTQ+ informado da suspensão total de repasses

A CBF alega, em nota, que “está criando estruturas e processos para avaliar e conduzir os projetos” e que, até a implementação, tudo segue “em análise”. Argumenta ainda não ter recebido “projeto formal com escopo aceitável” nem “prestação de contas detalhada” do coletivo. O Coletivo Canarinhos nega pendências e classifica a postura como “recuo na temática LGBTQ+ no futebol brasileiro”.

Por que isso importa para quem investe no esporte

Patrocinadores globais e nacionais exigem cada vez mais compliance social e relatórios de impacto ESG. A ausência de dados oficiais e independentes sobre discriminação cria um buraco de informação: clubes e marcas perdem a capacidade de medir riscos reputacionais, desenhar programas de capacitação e responder a stakeholders com evidências.

Além disso, a interrupção do fluxo de dados enfraquece a negociação de direitos de transmissão e acordos comerciais sensíveis a cláusulas de responsabilidade social. Em mercados regulados — como o europeu —, a falta de monitoramento ativo pode virar barreira de entrada.

O cenário racial: diálogo mantido, mas sem recurso

Diferente do caso LGBTQ+, a relação com o Observatório Racial é descrita como “boa” por ambos os lados. A CBF confirmou participação em ação conjunta com clubes no Dia da Consciência Negra (20 de novembro). No entanto, o anuário 2025 — que compila episódios, punições e encaminhamentos institucionais, incluindo atletas brasileiros no exterior — circulará sem o selo ou o dinheiro da confederação.

Essa dualidade — porta aberta para eventos simbólicos, fechada para estrutura de pesquisa — sinaliza uma gestão que prioriza exposição de marca em detrimento de inteligência de dados contínua.

O que observar daqui para frente

A promessa de “estruturas e processos” para avaliar projetos sociais precisa vir com cronograma e critérios públicos. Sem isso, a CBF corre o risco de substituir transparência por discricionariedade — o que afasta parceiros técnicos e expõe a entidade a questionamentos do Ministério do Esporte, do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e de órgãos de controle.

Para empresários e gestores de clubes, a lição prática: deixe de depender exclusivamente de dados da confederação. Monte ou contrate monitoramento próprio de incidentes discriminatórios. O vácuo deixado pelos observatórios será preenchido — a questão é por quem e com que metodologia.