Os eleitores americanos deram um recado claro nas urnas: querem alívio no bolso. Mas a configuração do novo Congresso sugere que esse alívio não vem — e a conta pode até aumentar.
A mudança no controle legislativo esbarra em um obstáculo simples: o poder de veto presidencial e a ausência de propostas concretas de ambos os lados para os problemas que mais pesam no orçamento familiar.
O custo de vida que o Congresso não consegue tocar
A inflação segue no topo das preocupações. Tarifas impostas na gestão anterior e a instabilidade no Oriente Médio mantêm pressão sobre combustíveis e itens básicos. O Legislativo até poderia recuperar a autoridade sobre tarifas — cedida ao Executivo há nove décadas — ou votar uma resolução de poderes de guerra para conter o conflito no exterior. Em ambos os casos, o veto presidencial encerra a discussão.
Resultado: a gasolina e o diesel seguem sensíveis a decisões geopolíticas, não a votos no Congresso.
Saúde: prêmios disparam 15% e subsídios acabaram
O mercado do Obamacare enfrenta um ciclo vicioso. Seguradoras pediram reajuste mediano de 15% para 2025. Os subsídios temporários para rendas médias expiraram, e indivíduos mais saudáveis estão saindo do sistema — o que eleva ainda mais o custo para quem fica.
A multa por não ter seguro, mecanismo que equilibrava o pool de risco, foi eliminada no primeiro mandato do atual presidente. Reinstaurá-la antes de 2029 é, na prática, impossível.
Data centers de IA: comunidades pagam a conta
A expansão da infraestrutura de inteligência artificial pressiona redes elétricas e hídricas locais. O Congresso poderia exigir estudos de impacto e consultas comunitárias, além de cobrar das empresas a ampliação da capacidade de fornecimento. O veto presidencial, porém, prioriza a liderança na corrida tecnológica sobre os efeitos locais.
Mudanças reais tendem a vir de governos estaduais, não de Washington.
Imigração: a política é feita no Executivo
Detenções e deportações afetam diretamente comunidades latino-americanas e asiáticas. O Congresso pode legislar, mas a execução está nas mãos de agências chefiadas por indicados presidenciais. Quando a opinião pública reagiu contra ações mais agressivas, o ICE apenas tornou suas táticas menos visíveis — sem mudar o fundo da política.
O elefante na sala: déficit acima de 6% e dívida acima de 100% do PIB
Mercados já precificam o risco. Juros de financiamentos imobiliários subiram, transferindo o custo do desequilíbrio fiscal para as famílias. Se nada for feito, a instabilidade financeira virá com força maior.
- Dívida pública: > 100% do PIB
- Déficit orçamentário: > 6% do PIB
- Impacto imediato: juros mais altos no crédito imobiliário
Republicanos insistem na narrativa de “cortar desperdícios” — estratégia que o breve Departamento de Eficiência Governamental provou ser ilusória. Democratas, por sua vez, evitam propor aumentos reais de arrecadação. A derrota do imposto sobre grandes fortunas na Califórnia, na terça-feira (3), reforça o receio político.
O que funciona — e por que não vai acontecer agora
Uma reforma tributária abrangente, fechando brechas e elevando alíquotas de forma progressiva, resolveria o problema estrutural. Os EUA têm carga tributária baixa frente a pares desenvolvidos. Mas isso exige: um presidente democrata com visão de longo prazo e um Congresso democrata disposto a enfrentar o tabu da reforma.
Nenhum dos dois cenários está posto para os próximos dois anos.
O que observar daqui para frente
Fique atento a três frentes: (1) movimentos estaduais para regular data centers e tarifas de energia; (2) a renovação — ou não — dos subsídios do Obamacare em 2025; (3) a reação do mercado de títulos se o déficit seguir acima de 6% sem plano crível de contenção. O alívio no bolso do eleitor depende mais de decisões técnicas em capitais estaduais e no Federal Reserve do que de qualquer votação no Capitólio.
