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Impeachment Aprovado: O Escândalo Que Derrubou Santiago Peña no Paraguai

Senado do Paraguai durante sessão de impeachment do presidente Santiago Peña
Sessão histórica no Senado paraguaio aprova impeachment de Santiago Peña por crise do banco Ueno

O Senado paraguaio aprovou, nesta sexta-feira (6), o impeachment do presidente Santiago Peña, encerrando um mandato de menos de dois anos. A decisão surge em meio a uma crise financeira explosiva envolvendo o fechamento do banco digital Ueno, que deixou milhares de correntistas sem acesso aos próprios recursos. A pergunta que fica é: como um governo eleito com discurso de estabilidade técnica chegou a esse ponto tão rápido?

A oposição acusa o Banco Central de ter encoberto irregularidades na instituição financeira da qual Peña era acionista do grupo controlador. O estopim político, no entanto, tem raízes mais profundas na estrutura de poder do Partido Colorado.

O estopim: Banco Ueno e a suspeita de blindagem

O colapso do banco digital Ueno funcionou como a faísca para um barril de pólvora já armado. Clientes ficaram dias sem sacar salários ou pagar contas, gerando pressão popular imediata nas ruas e no Congresso. A gravidade aumentou quando surgiram evidências de que a autoridade monetária teria retardado a intervenção para proteger interesses privados.

Peña, que detinha participação acionária no conglomerado por trás do banco, viu sua defesa de “isenção técnica” ruir diante da opinião pública. A votação no Senado reflete não apenas a revolta com o episódio financeiro, mas o desgaste de uma aliança política que sustentava o governo.

Perfil ideológico: Direita tecnocrática com viés conservador

Filiado ao Partido Colorado — a força política mais tradicional do país —, Peña se posiciona na direita do espectro. Sua marca, contudo, nunca foi a retórica inflamada, mas a gestão baseada em indicadores econômicos. No campo dos costumes, adota postura conservadora clássica: é publicamente contra a legalização do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

No tabuleiro internacional, alinhou-se automaticamente a figuras como Donald Trump e Javier Milei. A diferença está no tom: enquanto os pares adotam discursos de confronto, Peña preferia a linguagem de fóruns econômicos e reuniões de gabinete.

Trajetória: Do FMI ao ministério de Cartes

O currículo do agora ex-presidente explica a aposta do establishment nele. Formado em Economia pela Universidad Católica de Asunción, fez pós-graduação na Universidade de Columbia (EUA) e ingressou no Fundo Monetário Internacional aos 30 anos, atuando no departamento africano. De volta ao Paraguai, assumiu a presidência do Banco Central e, entre 2015 e 2017, o Ministério da Fazenda no governo Horácio Cartes.

Essa proximidade com Cartes — magnata do setor financeiro e tabagista — define sua origem política. Após deixar o ministério, foi trabalhar no banco do ex-chefe. Perdeu as primárias coloradas em 2018 para Mario Abdo Benítez, mas venceu a disputa presidencial de 2023, capitalizando o descontentamento com a economia estagnada e denúncias de corrupção que pesavam sobre a gestão anterior.

Vida pessoal: Pai adolescente e família discreta

Longe dos holofotes institucionais, a biografia de Peña carrega um detalhe humano raro em líderes de Estado: tornou-se pai aos 17 anos, ainda durante o ensino médio. Hoje, aos 47, é casado com Leticia Ocampo, com quem tem dois filhos. A família manteve perfil baixo durante a tempestade política que culminou na destituição.

O que observar daqui para frente

Com a saída de Peña, a sucessão constitucional coloca o vice-presidente no comando até 2028, mas a governabilidade dependerá da capacidade do Partido Colorado de fechar as fraturas internas expostas pelo caso Ueno. Dois vetores merecem atenção imediata: a condução das investigações sobre a atuação do Banco Central — que pode atingir aliados históricos — e a reação dos mercados à instabilidade política em um país que vendia previsibilidade como principal ativo. O próximo mês dirá se o Paraguai consegue isolar o escândalo financeiro da rota econômica ou se entra em ciclo de turbulência prolongada.