Economia

Brasil na lanterna da AL em 2027: o abismo fiscal que ninguém conta

Gráfico mostra Brasil em último lugar no crescimento da América Latina em 2027 com 1%
Projeção do Santander coloca Brasil na lanterna do crescimento latino-americano em 2027.

O Santander projeta que o Brasil crescerá apenas 1% em 2027, ficando para trás de todos os grandes vizinhos latino-americanos. A diferença não está no cenário externo, mas em uma armadilha interna que se fecha há mais de uma década.

Enquanto Argentina, Peru e Chile avançam entre 2,7% e 3,5%, o país patina em um modelo que o economista-chefe do banco, Marco Caruso, classifica como crescimento “a fórceps”. Entenda por que a conta fiscal cobra o preço agora.

O ranking que expõe a fragilidade brasileira

As projeções do banco espanhol para 2027 desenham um mapa claro da divergência regional. Os números mostram que o controle da dívida pública é o divisor de águas entre quem acelera e quem freia.

  • Chile: 3,5%
  • Peru: 3,2%
  • Argentina: 2,7%
  • Colômbia: 2,0%
  • México: 1,7%
  • Brasil: ~1,0%

Os três líderes da lista compartilham uma característica comum: endividamento público sob controle. O Brasil, por outro lado, caminha para uma dívida de 88% do PIB no mesmo horizonte — cerca de 20 pontos percentuais acima de pares emergentes comparáveis.

Por que o modelo “a fórceps” chegou ao limite

Caruso explica que a expansão recente da economia brasileira teve dois motores. Parte veio de reformas estruturais — um ganho real e saudável. A outra parte, porém, foi financiada por déficits primários recorrentes há mais de dez anos.

Desde a pandemia, o PIB rodou acima da média histórica de 2% a 2,5% ao ano. O problema é que não se cresce indefinidamente gastando mais do que se arrecada sem que o custo de crédito suba. Esse ciclo, segundo o economista, está esgotado.

O efeito imediato aparece nas expectativas de juros futuros, que subiram forte após a definição do cenário político para os próximos anos. A trajetória da dívida dita o ritmo da atividade.

A conta de R$ 400 bilhões para estabilizar

Para ancorar a dívida entre 90% e 95% do PIB, o Santander calcula um ajuste fiscal brutal: sair de um déficit primário estimado em 1% do PIB para um superávit de 2%. Em valores nominais, o esforço beira R$ 400 bilhões.

Não há atalho. Sem esse ajuste, a dinâmica da dívida permanece explosiva, mantendo o prêmio de risco elevado e o crescimento comprimido. O banco prevê que o PIB real pode ficar até ligeiramente abaixo de 1% enquanto a incerteza fiscal persistir.

Inflação e juros: o reflexo direto do descontrole

O “samba de uma nota só”, nas palavras de Caruso, explica também por que o Brasil convive com inflação e juros mais altos que os vizinhos. Enquanto a meta de 3% é padrão na região, por aqui ela se torna desafiadora quando as despesas obrigatórias crescem inflação mais 5% ao ano.

Historicamente, quando o gasto público cresceu apenas inflação mais 1%, o país entregou a meta com Selic de um dígito. A regra fiscal atual, que permite expansão real das despesas, quebra essa ancoragem.

O que observar daqui para frente

O cenário para 2027 depende quase exclusivamente da credibilidade do arcabouço fiscal. Se o governo demonstrar viabilidade no corte de R$ 400 bilhões no deficit estrutural, o prêmio de risco cai e o PIB pode surpreender para cima. Caso contrário, a estagnação relativa na América Latina se consolida como a nova normalidade. Para o investidor e o empresário, o sinal verde continua sendo a execução orçamentária, não a retórica.