Justiça

O segredo que ninguém conta: como redes femininas estão reescrevendo o poder no Judiciário

Mulheres juristas e comunicadoras em conferência "Mulheres que movem a Justiça" em Brasília, articulando redes contra machismo estrutural no Judiciário
Conferência internacional reúne mulheres para debater ocupação de cargos vitalícios e transformação do poder judiciário

Em Brasília, uma conferência internacional reuniu comunicadoras, juristas e influenciadoras para expor uma estratégia silenciosa: a articulação em rede como arma contra o machismo estrutural. O evento “Mulheres que movem a Justiça” segue até sexta-feira (6) e expõe dados que mudam a perspectiva sobre os próximos dez anos.

O que está em jogo não é apenas representatividade — é a ocupação de cargos vitalícios que definirão o rumo das decisões judiciais por décadas.

O número que assusta e a janela que se abre

Antonia Pellegrino, presidente da EBC, trouxe um dado concreto: pelo menos 40% dos cargos vitalícios serão nomeados na próxima década. Essa projeção transforma a composição do Judiciário em uma disputa territorial imediata.

“Trabalhar em rede é algo que nós, mulheres, sabemos fazer há séculos. Atuar em rede, para quem é mulher, é estratégia de sobrevivência”, afirmou Pellegrino. A frase resume o tom do encontro: a união não é retórica, é tática.

Historicamente, o “lobby do batom” — aliança suprapartidária de parlamentares na Constituinte de 1987-1988 — provou que poucas mulheres organizadas mudam a Constituição. Hoje, a aposta é replicar essa força nos tribunais.

Desinformação e o alvo preferencial

A comunicação pública virou alvo prioritário de grupos extremistas. Pellegrino alertou: redes de apoio feminino funcionam como antídoto contra campanhas coordenadas de misoginia e fake news.

  • Estratégias articuladas por radicais miram silenciar vozes femininas
  • Redes de checagem e amplificação mútua reduzem o alcance da desinformação
  • Comunicação pública resiste quando há coordenação entre profissionais

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor: o atendimento direto a vítimas.

Da teoria à prática: direitos que mulheres desconhecem

Miriane Ferreira, advogada com mais de dois milhões de seguidores no Instagram, expôs um abismo silencioso: mulheres que dedicaram a vida ao trabalho doméstico e aos cuidados familiares abrem mão de direitos patrimoniais no divórcio por desconhecerem a lei.

Seu canal descomplica temas jurídicos para que mulheres reconheçam o valor do próprio trabalho. “As mulheres precisam dessa solidariedade uma das outras para mostrar o poder que têm. Nós mulheres somos muito desacreditadas”, disse.

Sara Gabriela, criadora do projeto “Seja a princesa que salva a si mesma”, nascido em 2019 no atendimento a vítimas em Goiás, vai além: a informação não deve ser suavizada. O ordenamento jurídico brasileiro é avançado, mas a cultura misógina impede sua aplicação efetiva.

O “massacre” que o Judiciário inflige

Mayra Cotta, criadora da série “Afiadas” (exibida na TV Brasil), usou termo forte: “As mulheres estão denunciando mais, mas estão sendo massacradas pelo Judiciário”.

Ela aponta que não basta ter mais mulheres nos tribunais se a cultura de recepção das denúncias não muda. “Tem juízes passando pano para assediadores e abusadores todos os dias”, lamentou.

A série retrata manicures em Brasília discutindo política, filhos, violência — o cotidiano que o Direito ignora. A arte, para Cotta, expõe o abismo entre a lei no papel e a justiça na prática.

Voto, narrativa e o próximo ciclo

Thayse Xavier, fundadora da plataforma “Elas trabalham”, atuou no mês passado com mensagens permanentes para que mulheres votassem. “Mulheres fora do espaço de poder devem apoiar mulheres que estão nesses lugares.”

Fernanda Amim, cineasta e diretora do documentário “Reconhecidos”, completou: abrir espaços passa por contar histórias. Seu filme expõe o racismo estrutural no sistema de justiça criminal a partir do reconhecimento fotográfico — prova de que narrativas mudam instituições.

O que observar daqui para frente

A conferência sinaliza três movimentos convergentes: pressão por nomeações femininas nos 40% de cargos vitalícios vindouros, expansão de redes de comunicação contra desinformação misógina e educação jurídica massiva para mulheres reconhecerem direitos já existentes.

Para quem atua no mercado, no Direito ou na gestão pública, o recado é direto: a próxima década será definida por quem ocupar as vagas que surgirão — e por quem sustentar as redes que protegem essas ocupações. Acompanhar editais de tribunais, apoiar iniciativas de letramento jurídico feminino e mapear alianças suprapartidárias deixa de ser ativismo e vira inteligência estratégica.