Educação

O abismo na educação do DF: Ideb despenca, 34% são temporários e telhados caem

Escola pública do DF com telhado danificado e sala de aula precária
Infraestrutura escolar em colapso no Distrito Federal: telhados caem enquanto Ideb despenca.

A governadora reeleita Celina Leão (PP) assume o novo mandato em janeiro herdando a pior radiografia educacional do Distrito Federal em duas décadas: o Ideb caiu em todos os segmentos, a rede depende de contratos precários e a infraestrutura dá sinais de colapso. O contraste com o resto do país é brutal. Enquanto o Brasil celebrou o melhor índice da história, o DF foi a única unidade da federação a recuar no ensino médio.

O que explica o desmonte de uma rede que já foi referência nacional? A resposta passa por escolhas de gestão, disputa com o sindicato e um passivo que se arrasta desde a pandemia.

O tombo do Ideb e a narrativa da reprovação

Nos dados divulgados pelo MEC, as escolas públicas do DF não atingiram a meta em nenhum recorte — anos iniciais, anos finais e ensino médio. Pior: ficaram abaixo da média nacional em todos. O único alento aparece quando se soma a rede privada: nos anos iniciais do fundamental, a nota 6,4 supera por 0,1 a média do país.

Em setembro, ainda candidata, Celina atribuiu o desempenho à rigidez do sistema local: “Com duas matérias, você reprova”. A argumento é que outros estados adotaram aprovação automática, o que inflaria artificialmente seus indicadores. Especialistas ouvidos pelo g1, porém, ponderam que a taxa de rendimento (aprovação) pesa menos que a proficiência no cálculo do Ideb — ou seja, o nó está na aprendizagem, não na retenção.

Secretaria trocada, sindicato em pé de guerra

Em agosto, a então secretária Iêdes Braga — remanescente da gestão Ibaneis Rocha (MDB) — deu lugar a Thiago Peixoto. A troca não arrefeceu os ânimos. Em 21 de outubro, quatro dias antes do segundo turno, o Sinpro-DF paralisou as atividades denunciando “autoritarismo”: materiais didáticos impostos sem consulta à categoria e novo calendário escolar definido unilateralmente.

Celina classificou o ato como “eleitoreiro”. Passada a eleição, não houve sinal de reaproximação. O impasse tende a contaminar a implementação de qualquer reforma pedagógica nos primeiros meses de 2025.

O buraco negro de servidores: um terço da força é temporária

O Painel Estatístico de Pessoal do DF expõe a fragilidade estrutural: dos 48.820 servidores ativos da pasta, 16.912 (34,6%) estão em contratos temporários. A rotatividade quebra a continuidade pedagógica e onera a folha com encargos trabalhistas.

Medidas já anunciadas tentam estancar a sangria:

  • 2.681 nomeações do concurso de 2022 — autorizadas em agosto;
  • Novo edital com 10.604 vagas (2.650 imediatas + cadastro reserva) — publicação prevista para novembro;
  • Prazo do TCDF: 180 dias a partir de maio para apresentar cronograma completo.

Mesmo se cumprido o calendário, o déficit zero só viria no médio prazo. Enquanto isso, salas seguem sob responsabilidade de professores sem vínculo estável.

Tempo integral: 7% de cobertura e telhado no chão

A promessa de campanha — expandir o ensino integral começando pelas áreas de maior demanda — esbarra na realidade crua: apenas 7% dos alunos da rede estão em tempo integral. O Censo Escolar 2024 colocou o DF na lanterna nacional na oferta para o ensino médio.

Em outubro, parte do telhado de uma escola no Paranoá desabou. A unidade funciona desde 2016 em estrutura provisória. A Secretaria afirma ter 25 contratos de manutenção predial ativos, mas o episódio expõe o atraso crônico em reformas e a dependência de imóveis alugados — outro alvo do plano de governo.

O que observar nos primeiros 180 dias

Três variáveis dirão se o discurso de campanha vira entrega concreta: a publicação efetiva do edital do novo concurso ainda em novembro; a disposição do novo secretário para negociar pautas pedagógicas com o Sinpro-DF sem judicializar o conflito; e a execução orçamentária das 25 frentes de manutenção antes do período chuvoso de 2025. O Ideb de 2025 — primeiro do novo mandato — será o termômetro definitivo. Quem acompanha a gestão pública no DF sabe: promessa de plano de governo não falta. O que falta, historicamente, é capacidade de execução sustentada.