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O segredo por trás da renúncia do ministro que pode derrubar o presidente do Paraguai…

Ministro do Interior do Paraguai Enrique Riera no Senado durante julgamento de impeachment do presidente Santiago Peña
Enrique Riera reassume cadeira no Senado no dia do início do impeachment contra o presidente Peña.

O ministro do Interior do Paraguai, Enrique Riera, deixou o cargo nesta quinta-feira (5) para reassumir sua cadeira no Senado — justamente no dia em que a Casa inicia o julgamento de impeachment contra o presidente Santiago Peña. A manobra altera a correlação de forças no plenário e coloca o governo em xeque.

Peña nomeou Carlos Humberto Benítez González como substituto interino, mas a atenção do mercado e dos observadores políticos está toda voltada para o Senado. O desfecho pode definir o rumo da segunda maior economia do Mercosul nos próximos meses.

Por que a volta de Riera muda o jogo no Congresso

Riera era senador licenciado. Seu retorno expulsa o suplente Ramón Catalino Retamozo Delgado e devolve ao Partido Colorado um voto considerado estratégico para a base governista. A oposição, no entanto, questiona a legalidade da manobra: um ministro deixa o Executivo para julgar o próprio chefe no Legislativo.

O decreto de nomeação de Benítez foi publicado horas antes da sessão. A pressa sinaliza que o Palácio de los López antecipou o risco de perder a maioria no plenário. Cada voto conta: são 45 senadores, e o impeachment exige dois terços — 30 votos — para afastar o presidente definitivamente.

A crise que nasceu no sistema financeiro

Tudo começou com a quebra do Ueno Bank, na terça-feira (3). O Banco Central ordenou a liquidação da instituição após constatar insuficiência de recursos para honrar compromissos. O banco atendia 3 milhões de clientes e concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo verbas do Instituto de Previdência Social.

Peña, economista de formação, foi acionista do Grupo Vázquez — controlador do Ueno — até março de 2025. A oposição aponta conflito de interesse, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. O Banco Central também é alvo de acusações de encobrimento.

  • 3 milhões de correntistas afetados
  • US$ 850 milhões em depósitos públicos travados
  • 78 votos a favor do impeachment na Câmara (unanimidade)
  • 30 votos necessários no Senado para afastamento definitivo

A renúncia que não aconteceu

Na quinta-feira, a Câmara aprovou a abertura do processo contra Peña por unanimidade. O pedido contra o vice-presidente Pedro Alliana foi rejeitado. Horas depois, o presidente divulgou vídeo pedindo desculpas aos prejudicados e anunciou intenção de renunciar “pela estabilidade do país e preservação das instituições”.

O Congresso, porém, não aceitou. Parlamentares do Partido Colorado deixaram o plenário ao perceberem que não haveria votos para aprovar a saída — o que derrubou o quórum e suspendeu a sessão. Peña permaneceu no cargo, e o processo seguiu para o Senado.

O que observar nas próximas horas

Peña deve comparecer ao Senado nesta sexta-feira (6), às 10h, para apresentar defesa pessoal. Após a fala, os senadores retomam o julgamento. A expectativa é de sessões prolongadas, com possibilidade de votação ainda no fim de semana.

Para investidores e empresários com exposição ao Paraguai, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a votação no Senado, a capacidade do Banco Central de conter o contágio bancário e a reação das agências de rating. O país tem grau de investimento pela Moody’s e S&P — uma instabilidade prolongada pode colocar as notas em revisão.

Outro ponto crítico: a liquidação do Ueno ainda não tem cronograma definido de pagamentos aos credores. A demora na restituição dos depósitos previdenciários pode gerar pressão social nas ruas, o que complica ainda mais o cenário político.

Quem acompanha o risco-país deve manter posições defensivas até que o placar no Senado se desenhe com clareza. A volta de Riera ao plenário é a primeira peça movida — mas o tabuleiro continua aberto.