Justiça

O segredo que mulheres usam para ocupar 40% dos cargos vitalícios no Judiciário…

Mulheres líderes em conferência "Mulheres que movem a Justiça" em Brasília debatendo ocupação de cargos vitalícios no Judiciário
Conferência em Brasília discute como mulheres podem ocupar 40% dos cargos vitalícios do Judiciário na próxima década.

Em Brasília, a conferência “Mulheres que movem a Justiça” expôs uma janela histórica: pelo menos 40% dos cargos vitalícios do Judiciário serão preenchidos na próxima década. A articulação em rede, defendida por líderes da comunicação e do direito, surge como a chave para transformar essa vaga numérica em poder real.

O evento, que segue até sexta-feira (6), reuniu vozes que conectam comunicação, advocacia e ativismo para desenhar um plano prático. A pergunta central não é se as mulheres chegarão lá, mas como garantir que a estrutura as receba sem retrocessos.

A estratégia de sobrevivência que virou método político

A presidenta da EBC, Antonia Pellegrino, resumiu a lógica: “Atuar em rede, para quem é mulher, é estratégia de sobrevivência”. Ela citou o “lobby do batom” — a aliança suprapartidária de parlamentares na Constituinte de 1987-88 — como prova de que a organização coletiva garante direitos que perduram décadas.

Hoje, a mesma lógica serve para combater dois inimigos simultâneos: a desinformação orquestrada por grupos radicais e o assédio institucional. Pellegrino alertou que a comunicação pública virou alvo preferencial de governos extremistas, e redes de apoio funcionam como antídoto.

Direito na palma da mão: do Instagram ao divórcio

A advogada Miriane Ferreira traduz o juridiquês para mais de 2 milhões de seguidores. Seu foco: mulheres que dedicaram a vida ao trabalho doméstico e, ao se divorciar, descobrem que não sabem reivindicar o patrimônio construído a dois.

  • Bens comuns: explicação didática sobre meação e partilha.
  • Pensão e alimentos: critérios objetivos para negociação.
  • Violência patrimonial: identificação de sinais sutis de controle financeiro.

“A informação não deve ser suavizada”, complementa Sara Gabriela, criadora da página “Seja a princesa que salva a si mesma”. Para ela, o ordenamento jurídico brasileiro é avançado, mas a misoginia cultural impede sua aplicação plena. O projeto nasceu em 2019, a partir do atendimento a vítimas de violência em comunidades goianas.

O “massacre do Judiciário” e a urgência de mudar a recepção

A advogada Mayra Cotta, criadora da série “Afiadas”, usou termo forte: “As mulheres estão denunciando mais, mas estão sendo massacradas pelo Judiciário”. Ela aponta juízes que “passam pano para assediadores e abusadores todos os dias”.

O diagnóstico: não basta aumentar o número de mulheres nos tribunais se a cultura de acolhimento da denúncia não mudar. A presença feminina precisa vir acompanhada de protocolo rígido de escuta e de responsabilização de quem desqualifica a vítima.

Voto, narrativa e o racismo estrutural no sistema

A jornalista Thayse Xavier, fundadora da plataforma “Elas trabalham”, conecta a ocupação de poder ao voto consciente. No último pleito, manteve campanha contínua para levar mulheres às urnas. “Mulheres fora do espaço de poder devem apoiar mulheres que estão nesses lugares”, resume.

Já a cineasta Fernanda Amim trouxe o recorte racial: seu documentário “Reconhecidos” expõe as falhas do reconhecimento fotográfico, ferramenta que alimenta prisões injustas de homens negros e, por extensão, desestrutura famílias chefiadas por mulheres. Abrir espaço para essas histórias, diz ela, é pré-condição para uma justiça igualitária.

O que observar daqui para frente

Três movimentos merecem monitoramento nos próximos meses: (1) a publicação de editais para os cargos vitalícios previstos — e a transparência nos critérios de seleção; (2) a implementação de protocolos nacionais de acolhimento a denúncias de violência de gênero no Judiciário; (3) a expansão de redes de comunicação independente que traduzam direitos para o público leigo. Quem atua em gestão de risco, compliance ou diversidade deve mapear esses vetores agora: a janela aberta pela conferência fecha rápido se não houver pressão organizada.