Economia

O “Vorcaro paraguaio”: fintech bilionária, unicórnio na sala e prisão preventiva

Federico Vázquez Villasanti, fundador do Ueno Bank, fintech paraguaia investigada por desvio de recursos
Fundador do Ueno Bank preso preventivamente por suposto desvio de verbas públicas e de clientes.

O fundador do Ueno Bank, fintech que abalou o sistema financeiro do Paraguai, está preso preventivamente acusado de desviar recursos de cidadãos e instituições públicas. Federico Miguel Vázquez Villasanti, 36 anos, viu seu império desmoronar após o banco central intervir na instituição. O que parecia uma história de inovação disruptiva escondia, segundo as investigações, uma teia de empréstimos suspeitos para empresas do próprio grupo.

A defesa do empresário nega as irregularidades e pleiteia a conversão para prisão domiciliar. Mas o estrago na reputação — e no bolso dos investidores — já está feito.

Da oficina mecânica ao “unicórnio” de estimação

A trajetória de Vázquez se confunde com a do Grupo Vázquez, conglomerado que nasceu em 1945 como uma pequena oficina em Assunção. Hoje, a holding reúne mais de 20 empresas, emprega 5,5 mil pessoas e fatura, segundo dados corporativos, acima de US$ 1 milhão por dia.

O banqueiro assumiu o comando da Credicentro — financeira do pai — aos 18 anos, em 2008. Formado em marketing pela Universidade de Miami e com especialização em finanças pela Incae Business School, ele personificava o perfil do herdeiro moderno: educação internacional, discurso de inovação e apetite por risco.

Em 2022, a Credicentro virou Ueno Holding, controladora do banco digital que prometia revolucionar o crédito no país. O símbolo escolhido? Um unicórnio. No jargão do mercado, startups avaliadas acima de US$ 1 bilhão. Vázquez levou a metáfora ao pé da letra: a polícia encontrou uma escultura gigante do animal mitológico no corredor de sua mansão, ao lado do quarto.

O paralelo brasileiro que ninguém ignora

A comparação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, é inevitável — e assustadoramente precisa. Ambos herdaram negócios familiares, ambos construíram impérios de crédito com expansão agressiva, ambos colecionam carros de luxo e ambos reagiram a reportagens críticas alegando perseguição concorrencial.

Na garagem de Vázquez, os agentes apreenderam sete carros de luxo e duas picapes. Todos pretos. Valor estimado: US$ 1,4 milhão. Vorcaro, para contextualizar, chegou a ostentar uma frota avaliada em dezenas de milhões.

Mas a semelhança mais perigosa está na blindagem narrativa. Dois meses antes da prisão, Vázquez publicou carta aberta questionando: “Por que tanta insistência em desacreditar o Ueno?”. O tom, a retórica e o timing espelham a estratégia de comunicação do brasileiro.

O que as investigações apontam até agora

O cerne da acusação não é a velocidade do crescimento, mas a destinação dos recursos. Segundo o Ministério Público paraguaio:

  • Operações de crédito suspeitas direcionadas a empresas do próprio grupo Vázquez
  • Crimes contra o patrimônio de cidadãos e instituições públicas e privadas
  • Intervenção do banco central na instituição antes da prisão

A defesa sustenta que o empresário está à disposição da Justiça e que as acusações não se sustentam. O pedido de prisão domiciliar aguarda análise judicial.

O que observar daqui para frente

O caso Ueno expõe a fragilidade de modelos de crédito baseados em autopromoção e concentração de risco em grupos familiares. Para investidores e parceiros comerciais, três pontos merecem monitoramento contínuo:

  • A extensão do contágio para outras empresas do Grupo Vázquez
  • A resposta regulatória do Banco Central do Paraguai — se haverá endurecimento nas regras para fintechs
  • O desdobramento da comparação com o caso Master no Brasil: se autoridades dos dois países passarão a trocar informações sobre padrões de fraude em crédito digital

Enquanto o unicórnio de estimação segue apreendido como símbolo de uma era que terminou mal, o mercado financeiro paraguaio — e o brasileiro — assistem ao desenlace de mais um capítulo onde a inovação serviu de disfarce para velhos vícios.