Anderson Pereira de Freitas transforma mel em renda extra garantida há duas décadas na Expoferr. O apicultor revela que o faturamento dos cinco dias de feira equivale a um salário inteiro a mais no ano. Mas o verdadeiro ativo não está no favo — está no processo que leva 120 dias para ficar pronto.
Enquanto 900 mil visitantes circulam pelo Parque Dandãezinho até sábado (7), a banca do Apiário Freitas mantém a fila constante. A feira projeta movimentar quase R$ 1 bilhão em negócios com 300 expositores, segundo dados do governo estadual, que investiu R$ 10 milhões na estrutura.
O produto que exige paciência de investidor
O hidromel é o carro-chefe da marca. A bebida fermentada naturalmente — sem conservantes ou aditivos químicos — exige entre 90 e 120 dias de maturação monitorada. A produção é uma parceria com o Apiário Recanto da Abelha, garantindo escala e controle de qualidade.
O ciclo longo cria uma barreira de entrada natural. Concorrentes que buscam giro rápido de estoque não conseguem replicar o modelo sem capital de giro para sustentar o tempo de cave.
Portfólio diversificado: do favo ao molho de pimenta
A mesa expõe sete linhas distintas, reduzindo risco de sazonalidade e ticket médio baixo:
- Mel em bisnaga e em favo (produto de entrada);
- Própolis e pólen (alto valor agregado, nicho wellness);
- Geleia real e cera de abelha (insumos para cosméticos/farmacêuticos);
- Molho de pimenta com mel (inovação para food service);
- Hidromel (ticket premium, fidelização).
Essa estrutura permite ao negócio atender desde o consumidor final até canais B2B que buscam matéria-prima certificada.
O desafio invisível: confiança como moeda
Anderson admite que a maior barreira não é logística nem climática — é a desconfiança do mercado. “Muitas pessoas perguntam se é mel puro”, relata. A ausência de selos universais de pureza no varejo local força o produtor a gastar energia em educação do cliente, não em produção.
Esse atrito eleva o custo de aquisição de cliente (CAC), mas cria fidelidade altíssima pós-primeira compra. Quem prova e valida a pureza torna-se comprador recorrente e indicador orgânico.
Sucessão já em andamento
O legado familiar tem continuidade prática. O filho de seis anos já acompanha o pai no apiário, aprendendo manejo de enxames e coleta. A transmissão de conhecimento tácito — manejo sazonal, identificação de florações, controle de pragas — reduz a curva de aprendizado da próxima geração a praticamente zero.
Na prática, a empresa já opera com governança familiar informal, mitigando o risco de “morte do fundador” que quebra 70% dos negócios familiares na primeira sucessão.
O que observar nos próximos ciclos
A Expoferr 2026 funciona como vitrine para dois vetores de expansão: a formalização de canais B2B para própolis e geleia real junto a indústrias de suplementos, e a escalada do hidromel para fora do calendário sazonal da feira. Se o apiário conseguir certificar a rastreabilidade total — do enxame à garrafa — o ticket médio pode dobrar sem aumentar volume de abelhas.
Fique atento à regulamentação estadual de selos de pureza e ao acesso a linhas de crédito específicas para agroindústria familiar. Ambos podem transformar o “13º salário” em receita recorrente de sete dígitos.
