O Ministério Público do Paraguai expôs uma operação em que o Ueno Bank financiou a compra de sua própria carteira de créditos podres por US$ 74,4 milhões. O esquema envolveu uma empresa “compradora” que tinha menos de US$ 100 mil em caixa um dia antes da transação. O desdobramento já fechou agências, prendeu oito executivos e colocou o presidente do país na mira de protestos nas ruas.
Como um banco que cresceu 60% da base adulta do país em três anos chegou a esse ponto? A resposta passa por empréstimos circulares, empresas-laranja e um aporte público de quase meio trilhão de guaranis.
O mecanismo da simulação: dinheiro sai, volta e “compra” a própria dívida
Em 15 de junho, a Vinanzas SA — empresa que a investigação aponta como pertencente ao próprio Ueno — adquiriu a carteira de créditos do banco. Horas antes, a Vinanzas tinha saldo de apenas US$ 93,8 mil. De repente, recebeu aporte de US$ 76,06 milhões.
De onde veio o dinheiro? Em quatro dias, o Ueno liberou empréstimos para seis empresas:
- 11 de junho: US$ 10 mi para Technoma + US$ 10 mi para La Tropa Fletes
- 15 de junho: US$ 35 mi para HD Invest + US$ 20 mi para Satec + US$ 6,8 mi para Factopar
HD Invest e Satec transferiram os recursos direto para a Vinanzas. As demais usaram intermediários — incluindo o Grupo Vázquez, controlador majoritário do banco — para fazer o dinheiro chegar ao mesmo destino. A Vinanzas então “comprou” a carteira do Ueno com o dinheiro que o próprio Ueno havia emprestado dias antes.
O que está em jogo para depositantes e credores
O Banco Central do Paraguai determinou o fechamento das agências e acionou o Fundo Garantidor de Depósitos. Cobertura: até o equivalente a US$ 38 mil (cerca de R$ 208 mil) por cliente. Pagamentos antecipados começaram na quinta-feira seguinte à intervenção, com prazo de até cinco dias úteis para conclusão — antes, o prazo era de 15 dias.
Funcionários terão verbas rescisórias pagas, mas sem data definida. Para quem tem valores acima do teto garantido, a recuperação dependerá da liquidação dos ativos restantes — e a carteira “vendida” era justamente uma das principais.
Oito prisões e a conexão política
Entre os detidos estão o presidente do banco (Juan Manuel Gustale Cardoni), o fundador e vice-presidente (Federico Miguel Vázquez Villasanti), a segunda vice-presidente (Diana Leticia Mongelós González), um ex-diretor do Banco Central (Diego Fernando Duarte Schussmuller) e o presidente do Grupo Vázquez (Miguel Ángel Almada Frutos).
Acusações: conduta indevida em crise, abuso de confiança, tentativa de fraude e violação de normas contábeis. A defesa do presidente do banco alega desconhecimento das operações irregulares.
O escândalo respingou no Palácio: Santiago Peña, presidente do Paraguai, foi investidor da holding do Ueno até março de 2025. Protestos em Assunção pediram seu impeachment na quarta-feira; polícia usou spray de pimenta, balas de borracha e jatos d’água para dispersar manifestantes.
Do nicho ao colapso: a trajetória que enganou reguladores
Fundado como fintech em 2021, o Ueno obteve licença bancária em tempo recorde. Em três anos, alegava atender mais de 60% dos adultos paraguaios — 3 milhões de clientes. Patrocinava a seleção nacional, abria agências de alto padrão e imitava o modelo de crescimento agressivo de Nubank e Monzo.
O Grupo Vázquez, controlador, injetou capital e usou o banco para financiar seu próprio conglomerado. Depósitos públicos chegaram a US$ 850 milhões (R$ 4,66 bi), quase um terço do funding do banco. Em março, o Ueno fez a maior emissão de títulos corporativos da história do Paraguai.
Sinais de alerta existiam: Fitch revisou a perspectiva para negativa no mês passado, citando “crescimento acelerado do balanço e altos ativos intangíveis”. Títulos com vencimento em 2031 já operavam com prêmio de risco elevado antes da intervenção.
O que observar nas próximas semanas
A audiência de custódia dos oito presos nesta quinta-feira definirá se permanecem detidos. Outros 19 investigados de empresas citadas no esquema aguardam desdobramentos. O Banco Central precisará demonstrar se a liquidação ordenada do Ueno preserva valor para credores não garantidos — e se o Fundo Garantidor tem fôlego para honrar todos os depósitos cobertos sem contágio sistêmico.
Para investidores em dívida soberana paraguaia, o teste é se a supervisão bancária consegue isolar o episódio ou se a credibilidade do arcabouço regulatório ficará arranhada. O próximo relatório de estabilidade financeira do BC local e eventuais revisões de rating por agências internacionais dirão se o caso Ueno foi um tumor isolado ou sintoma de doença autoimune no setor.
