Economia

O segredo que trava a abertura do mercado de ônibus interestaduais

Ônibus interestaduais em rodovia brasileira com documentos regulatórios sobrepostos simbolizando abertura de mercado
Mercado de ônibus interestaduais travado por monopólio e burocracia regulatória

O Ministério da Fazenda exigiu que a ANTT coloque em prática a resolução que promete quebrar o monopólio das linhas interestaduais. A norma existe desde 2023, mas nenhuma janela de abertura ordinária funcionou até hoje. O entrave bilionário envolve decisões do STF, falhas tecnológicas e uma fila de 70 mil pedidos parados.

O que a Fazenda descobriu que ninguém disse

Em parecer assinado para a agenda regulatória 2027/2028, a Subsecretaria de Acompanhamento Econômico determinou uma Análise de Resultado Regulatório (ARR). O objetivo é diagnosticar por que a Resolução nº 6.033, desenhada para estimular a concorrência, continua no papel.

O documento é direto: “até o presente momento ainda não houve nenhuma janela de abertura ordinária”. A Janela Extraordinária nº 01/2024, que previa autorizações para 47.291 mercados (sendo 38.379 desassistidos e 8.912 monopolizados), travou três vezes.

O efeito cascata nos pequenos operadores

Empresas novatas do setor são as maiores prejudicadas. Hoje, as rotas mais rentáveis estão concentradas em poucos grandes grupos. A promessa da lei de 2014 era transformar o regime de concessão em autorização, facilitando a entrada de novos players.

Na prática, o cenário é outro. Dados da Amobitec mostram que, em 2025, dos 33 mil mercados vigentes, cerca de 25 mil nasceram de decisões judiciais, não da regulação da agência. Isso cria insegurança jurídica e afasta investimento privado.

  • 70 mil solicitações de autorização recebidas nos últimos dois anos.
  • Zero janelas ordinárias concluídas desde a publicação da norma.
  • 38 mil mercados desassistidos mapeados na janela extraordinária travada.

Por que a tecnologia travou o STF

A primeira janela extraordinária foi aberta em março de 2024. O resultado foi suspenso, liberado e suspenso novamente. A última paralisação veio do Supremo Tribunal Federal, em ação movida pela Anatrip.

A associação das empresas tradicionais apontou vulnerabilidades tecnológicas no sistema da ANTT. Enquanto a agência não resolve a infraestrutura digital, o mercado fica congelado. A Fazenda classificou a norma como de “grande impacto concorrencial” e cobrou ajustes para que o regime de autorização saia da teoria.

O que observar daqui para frente

A determinação da Fazenda coloca a ANTT contra a parede: a ARR deve ser entregue nos próximos dois anos. Para o investidor ou empresário, o sinal é claro: a abertura real depende da resolução do imbróglio judicial e da modernização dos sistemas da agência.

Enquanto a análise de resultado não sai, a entrada de novos competidores segue refém de liminares. Quem monitora o setor deve acompanhar o cronograma da ARR e a capacidade técnica da ANTT de rodar uma janela ordinária sem falhas. O próximo capítulo define se o transporte rodoviário vira, de fato, um mercado livre.