Um monumento de quatro toneladas feito com sucata de ferro e tela de alambrado foi erguido em apenas dez dias úteis no Centro-Oeste de Minas. A escultura, réplica gigante de um tênis, está instalada em Nova Serrana e representa o primeiro marco de um plano ambicioso para transformar a identidade visual da capital do calçado. O que parecia descarte virou ativo turístico em tempo recorde.
Mas a velocidade da obra esconde uma lógica de negócios que vai muito além da arte pública. Acompanhe como a engenharia do reaproveitamento está redesenhando a economia local.
A execução relâmpago e a engenharia do reaproveitamento
A construção começou em 17 de abril de 2026, a partir de um esboço no papel. Em menos de duas semanas, a estrutura de 3 metros de altura por 5 de comprimento estava de pé nos fundos da Prefeitura. O segredo não foi apenas a mão de obra, mas a especificação dos materiais: 14 sacos de cimento no total, sendo dez na estrutura e quatro no acabamento, além de ferro que seria descartado e telas de alambrado reutilizadas.
O artista plástico Udiery Silva, ex-pedreiro com sete anos de construção civil, aplicou técnicas de obra para vencer a rigidez do concreto. A sola, os ilhoses e até o caimento do cadarço foram esculpidos manualmente com colher e massa de consistência firme, dispensando fôrmas complexas.
Ficha técnica da escultura:
- Peso: 4 toneladas
- Dimensões: 3m (altura) x 5m (comprimento)
- Tempo de estrutura: 10 dias úteis
- Insumos principais: Ferro reciclado, tela de alambrado reaproveitada, 14 sacos de cimento
Após a montagem, a peça ficou armazenada por seis meses até o transporte para o canteiro definitivo em frente à rodoviária, em 22 de outubro. A logística municipal absorveu o custo de deslocamento da obra pronta.
Impacto direto: economia circular e identidade de marca
Para o empresariado local, o caso funciona como um estudo de caso vivo de upcycling em escala pública. Nova Serrana responde por fatia significativa da produção nacional de calçados; transformar o “lixo” da indústria em símbolo da cidade fecha um ciclo narrativo poderoso. O monumento deixa de ser custo ornamenta e passa a atuar como âncora de place branding.
A trajetória do autor reforça o viés de capacitação: a transição de pedreiro para escultor e professor de artes ilustra a mobilidade de competências técnicas para o setor criativo. A Prefeitura, ao contratar e fornecer infraestrutura (espaço, caminhão, cimento), atuou como fomentadora de um ativo que atrai olhares para o polo industrial.
O projeto maior: cinco ativos até junho de 2027
O tênis é apenas a largada. O contrato prevê a entrega de cinco esculturas gigantes, cada uma representando uma tipologia de calçado — chinelo, sapato de salto alto e outros modelos — com prazo final em junho de 2027. Isso cria uma “rota dos calçados” a céu aberto, potencializando o fluxo de visitantes para a região da rodoviária e comércio adjacente.
A previsibilidade do cronograma permite que comerciantes e hoteleiros planejem campanhas sazonais atreladas às inaugurações. Cada nova peça renova o interesse da mídia espontânea, reduzindo custo de aquisição de turistas.
Decisão pendente: a cor que define a percepção de valor
Antes da entrega final, resta uma variável estratégica: a pintura. Duas propostas estão na mesa e alteram radicalmente a leitura do monumento:
- Bronze monocromático: Posiciona a obra como “estátua”, reforçando permanência, tradição e solidez institucional.
- Amarelo, branco e preto: Espelha o produto de prateleira, criando conexão imediata com o varejo e a indústria da moda.
Uma enquete pública foi aberta para definir a escolha. O engajamento digital gerado pela votação funciona como métrica de interesse prévio, dados valiosos para futuras campanhas de marketing territorial.
O que observar daqui para frente
O próximo marco é a definição da paleta de cores e a aplicação da tinta esmalte de alta resistência. Paralelamente, o cronograma das quatro esculturas restantes deve ser divulgado. Para investidores e gestores, o indicador-chave será a capacidade do poder público de manter o ritmo de uma obra a cada semestre, transformando sucata industrial em fluxo de pessoas — e, consequentemente, em receita para o varejo local. Acompanhe as licitações de manutenção e iluminação do entorno; elas sinalizam a seriedade de longo prazo do projeto.
