Economia

Embraer avança na Índia: 100 aviões e fábrica militar… o que vem agora?

Jato militar C-390 Millennium da Embraer sobrevoando fábrica na Índia com logotipo da IndiGo ao fundo
Embraer negocia 100 jatos com a IndiGo e planeja fabricar o C-390 na Índia, maior mercado de aviação após China e EUA.

A Embraer disparou uma ofensiva dupla na Índia em 2026: negocia 100 jatos comerciais com a IndiGo e prepara o chão para fabricar o cargueiro militar C-390 Millennium em solo indiano. As duas frentes, se concretizadas, podem redefinir o peso da brasileira no segundo maior mercado de aviação do mundo.

As ações fecharam a R$ 107,06 na quarta-feira (4), alta de 3,1% no dia. O papel vem surfando a valorização do dólar desde o segundo turno das eleições — a Embraer fatura em moeda americana.

O lance comercial: IndiGo na mira

Segundo a Reuters, a fabricante está em tratativas avançadas com a IndiGo, maior companhia aérea da Índia, para vender 100 aeronaves com opção para outras 50 unidades. O modelo não foi confirmado, mas o E175 é o principal candidato a “abrir novos mercados”, nas palavras do vice-presidente de marketing Rodrigo Silva e Souza.

Em fevereiro, a Embraer assinou memorando com a Adani Defence & Aerospace para instalar uma linha de montagem final do E175 no país. A cerimônia contou com a presença do presidente Lula e do ministro indiano Piyush Goyal.

O lance militar: Mahindra, Nagpur e o programa MTA

Paralelamente, a parceria com o Grupo Mahindra — conglomerado de 1945 que vai de tratores a energia renovável — mirou o programa MTA (Medium Transport Aircraft) da Força Aérea Indiana.

  • Outubro 2025: acordo de cooperação estratégica para promover o C-390 Millennium.
  • Outubro 2026: anúncio de ecossistema industrial para fabricação local.
  • Início de 2026: Embraer comprou 51% da NAL (Novavayu Aerospace Limited), até então controlada pela Mahindra. A NAL, fundada em julho de 2026, ainda não registrou faturamento.

A cidade de Nagpur, no centro da Índia (estado de Maharashtra), foi identificada como potencial sede da linha de montagem final. A infraestrutura está sendo preparada para entrar em operação assim que o governo indiano formalizar a compra.

Mas o efeito mais relevante aparece na cadeia de suprimentos.

Fornecedores locais: Bharat Forge abre a porteira

Em maio, a Embraer fechou seu primeiro contrato com um fornecedor indiano: a Bharat Forge Limited, especializada em componentes críticos de alto desempenho. A movimentação sinaliza que a fabricante quer nacionalizar conteúdo — exigência comum em contratos de defesa indianos — e reduzir custos logísticos.

O mercado indiano: crescimento de dois dígitos… com solavancos

Entre 2011 e 2019, o tráfego de passageiros na Índia cresceu a 10,3% ao ano (CAGR), muito acima da média global e da Ásia-Pacífico. Em setembro de 2026, porém, a demanda doméstica caiu 8,3% na comparação anual, reflexo da guerra no Irã e da alta do combustível. A retração global no mesmo mês foi de apenas 0,5%.

A volatilidade não apaga o potencial de longo prazo, mas exige estômago e caixa — dois ativos que a Embraer tem mostrado.

Raio-X rápido da Embraer (2º tri/2026)

  • Lucro líquido: R$ 1,11 bilhão
  • Receita líquida: R$ 11,3 bilhões
  • Carteira de pedidos: US$ 34,5 bilhões
  • Funcionários: ~23 mil no Brasil e exterior
  • Concorrentes diretos: Boeing e Airbus

O que observar daqui pra frente

Três gatilhos ditam o próximo capítulo: a assinatura firme do contrato com a IndiGo, a seleção do C-390 pelo programa MTA indiano e a velocidade de implantação das linhas de montagem em Nagpur (militar) e na unidade com a Adani (comercial). Cada um deles transforma intenção em receita recorrente — e em exposição cambial favorável. Para quem acompanha a tese de internacionalização da Embraer, a Índia deixou de ser “mercado futuro” e virou “execução presente”.