Cultura

Shows de Jorge & Mateus cancelados no Réveillon: o que houve nas capitais do Nordeste

Jorge e Mateus cantando em show ao ar livre lotado, duo sertanejo brasileiro
Show da dupla sertaneja cancelado no Réveillon de Fortaleza e Recife após pressão nas redes sociais

As prefeituras de Fortaleza e Recife retiraram a dupla Jorge & Mateus da programação de fim de ano após pressão nas redes sociais. A decisão foi anunciada nesta terça-feira (3) e atinge apresentações que movimentam milhões em turismo local. O estopim foi um vídeo eleitoral que voltou a circular nos últimos dias.

O prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), confirmou o cancelamento do show marcado para 27 de dezembro. Em vídeo nas redes sociais, afirmou que “não há mais clima” para a apresentação, mas garantiu que a festa permanece. A mudança ocorreu em menos de 24 horas: na véspera, o mesmo prefeito defendia a convivência com opiniões políticas diferentes.

O vídeo que reacendeu a polêmica

A controvérsia ganhou força após a recirculação de uma gravação do segundo turno das eleições, em outubro. Nas imagens, feitas em Nerópolis (GO), o cantor Jorge aparece ao lado de outros artistas sertanejos declarando apoio a Flávio Bolsonaro (PL). “Pode chorar, mas eu não voto no PT”, disse o artista na ocasião.

O trecho voltou a viralizar logo após o anúncio das atrações do Réveillon nas duas capitais. A repercussão negativa mobilizou perfis políticos, movimentos culturais e moradores, que cobraram posicionamento das gestões municipais. A pressão digital forçou a revisão dos contratos em tempo recorde.

Fortaleza segue o mesmo caminho

Horas depois do anúncio pernambucano, o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), confirmou a retirada da dupla da programação da capital cearense. A justificativa oficial cita “questões que provocaram polêmica em torno dos artistas”. Não houve detalhamento sobre multas ou custos de rescisão contratual.

As duas prefeituras mantêm as festas de Réveillon com outras atrações. O argumento central é preservar o apelo turístico e econômico dos eventos, que costumam atrair centenas de milhares de pessoas às orlas. A programação alternativa deve ser divulgada nos próximos dias.

Impacto no mercado de shows e contratos públicos

O episódio expõe a vulnerabilidade de contratações artísticas para eventos públicos em ano eleitoral ou pós-eleição. Promotores e secretarias de cultura passam a considerar o “risco reputacional” dos artistas como critério de seleção, além do cachet e da disponibilidade de agenda.

  • Cachet estimado da dupla: entre R$ 500 mil e R$ 800 mil por apresentação
  • Público esperado: 300 mil a 500 mil pessoas por evento
  • Impacto econômico local: hotéis, bares e comércio projetam queda de 15% a 20% no faturamento

Especialistas em direito administrativo apontam que o cancelamento unilateral pode gerar disputas judiciais se não houver cláusula de rescisão por “má conduta” ou “quebra de imagem”. A ausência de critérios objetivos abre espaço para questionamentos sobre uso de dinheiro público.

O que observar nos próximos dias

A dupla não se manifestou oficialmente até o fechamento desta matéria. A assessoria de imprensa informou que “estuda as medidas cabíveis”. O silêncio pode indicar estratégia jurídica ou tentativa de evitar amplificação do tema.

Para empresários do setor de eventos, o caso cria precedente: contratos futuros devem prever cláusulas de “conduta pública” e gatilhos de rescisão por exposição negativa. Gestores públicos, por sua vez, tendem a exigir declarações prévias de alinhamento — ou ao menos neutralidade — de artistas contratados com verba municipal.

O Réveillon de 2024 nas duas capitais será teste de público e de como a troca de atrações de peso afeta a arrecadação e a percepção dos eleitores sobre a gestão cultural. Os números de ocupação hoteleira e consumo no comércio nos primeiros dias de janeiro dirão se a decisão política teve custo econômico real.