O Banco Central do Paraguai decretou intervenção total no Ueno Bank, maior banco digital do país, congelando ativos e passivos de 2,9 milhões de clientes. A medida, anunciada na terça-feira (3), expôs um buraco de solvência e acendeu uma crise que já derrubou o presidente da autoridade monetária e ameaça o mandato de Santiago Peña.
O índice de solvência da instituição despencou para 5,56% — menos da metade dos 12% exigidos por lei. Investigadores encontraram empréstimos a empresas ligadas aos controladores, avaliações de risco fragilizadas e inconsistências contábeis. O banco pertence ao Grupo Vázquez, do empresário Federico Miguel Vázquez.
O que está em jogo para o seu bolso
O Ueno administra mais de US$ 850 milhões (cerca de R$ 4,7 bilhões) em recursos públicos, incluindo aportes do Instituto de Previdência Social. Cerca de 32 mil aposentados têm dinheiro atrelado à instituição. Na prática, salários, aposentadorias e operações de pequenas empresas pararam na terça-feira — caixas eletrônicos e aplicativo ficaram inoperantes.
O Fundo Garantidor de Depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis por CPF (aproximadamente R$ 205 mil ou 75 salários mínimos). Segundo o BC, isso protege 97% dos correntistas. Quem tem valores acima do teto entra na fila de credores e depende da liquidação de ativos.
- Cobertura do Fundo: até R$ 205 mil por depositante
- Percentual protegido: 97% dos correntistas
- Prazo para primeiros pagamentos: 5 dias úteis (nova lei)
- Recursos públicos sob gestão: US$ 850 milhões
O fio que liga o Palácio ao banco
Peña nomeou Carlos Carvallo — então CEO do Ueno — para presidir o Banco Central. A escolha foi criticada na época por conflito de interesses óbvio. Em abril de 2025, o presidente declarou ter vendido sua participação de 1,58% na Ueno Holding em março daquele ano. Carvallo nega ter participado de decisões regulatórias sobre seu ex-empregador.
Na terça, Peña pediu a renúncia de Carvallo e indicou Raúl Vera Bogado, ex-presidente do BC, para o cargo. No mesmo dia, o Congresso aprovou em regime de urgência lei que acelera o pagamento do fundo garantidor. A sanção saiu na quarta-feira (4).
Repercussão política: pedido de impeachment no radar
Oito executivos do banco foram presos. A oposição, liderada pelo Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), anunciou intenção de protocolar pedido de impeachment contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. O pré-candidato Ricardo Estigarribia classificou a gestão como “irresponsável com o dinheiro de trabalhadores”.
Alliana, cotado para suceder Peña pelo Partido Colorado (hegemônico no país), defendeu punição rigorosa aos responsáveis e proteção aos correntistas. A ruptura no bloco governista ainda não ocorreu, mas a pressão interna cresce.
O que observar nas próximas semanas
A Superintendência de Bancos deve apresentar o balanço definitivo que definirá a recuperação de valores acima do teto do fundo garantidor. Do lado político, a velocidade do pedido de impeachment — e a adesão de deputados colorados — ditará se a crise permanece contida no setor financeiro ou derruba o governo. Para investidores, o teste real será a reação dos ratings soberanos: o “selo de bom pagador” conquistado recentemente pelo Paraguai está sob escrutínio.
Enquanto isso, 2,9 milhões de usuários aguardam a reabertura parcial dos canais. O BC garante que o sistema financeiro como um todo permanece sólido. O mercado, porém, precifica desconfiança.
