Justiça

Esquema de R$ 271 milhões expõe falha em fundos comprados pela QI Tech

Operação policial investiga lavagem de R$ 271 milhões em fundos da QI Tech
Mandados de busca cumprem 64 ordens judiciais em esquema de créditos de ICMS frios.

Uma operação conjunta do Ministério Público do Paraná, Polícia Civil e Receita Federal atingiu em cheio fundos de investimento administrados pela Singulare Corretora — adquirida pela fintech QI Tech no fim de 2024. O esquema, que movimentou centenas de milhões em créditos de ICMS frios, revela uma nova rota de lavagem de dinheiro pelo mercado de capitais.

As operações Enxágue e Catéter cumpriram 64 mandados de busca em 28 cidades de quatro estados. A Justiça decretou o bloqueio de até R$ 271,5 milhões em bens. Ninguém foi preso, mas nove investigados estão sob medidas cautelares.

Como a engrenagem funcionava

O setor-alvo é o comércio de sebo e gordura animal, insumos essenciais para usinas de biodiesel e curtumes. Frigoríficos vendiam a mercadoria sem nota fiscal ou emitiam notas para empresas de fachada — as “noteiras” — sem que o produto passasse por elas. A gordura seguia direto para as usinas.

O truque tributário: ao comprar de uma noteira, a usina gerava crédito de ICMS para abater do próprio imposto. Se comprasse direto do frigorífico, arcaria com a carga cheia. Com o crédito artificial, a usina pagava menos imposto e o frigorífico vendia por preço mais competitivo. A dívida ficava com a noteira — empresa sem patrimônio, aberta em nome de laranjas, beneficiários de programas sociais e até pessoas falecidas.

  • 23 noteiras acumulam R$ 316 milhões em créditos tributários constituídos
  • Empresas registradas em nomes de mortos e “fantasmas”
  • O MP enquadra a conduta como crime de sonegação fiscal

O papel dos FIDCs na lavagem

No núcleo financeiro, fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) compravam duplicatas das empresas envolvidas e antecipavam os valores. As duplicatas eram pagas pelas usinas — a mercadoria existia — mas o dinheiro antecipado ia para “contas bolsões” e era distribuído à organização.

Para o promotor José Paulo Montesino Gomes da Silva, do Gaeco, trata-se de uma nova modalidade de lavagem de capitais:

“A gente costumava trazer as lavagens clássicas: compra de bens, conta de terceiros, imóveis. Essa é por meio de FIDCs. O dinheiro some ali dentro. Você não consegue entender quem de fato está movimentando. É um desafio até para nós.”

Em uma das empresas alvo em Rolândia (PR), mais de 80% de toda a movimentação financeira passava por FIDCs — percentual que, para os investigadores, não faz sentido econômico, já que a empresa pagaria deságio em praticamente todas as vendas.

Conexão com a QI Tech

A Singulare administrava os FIDCs identificados nas duas investigações. A corretora foi comprada pela QI Tech em novembro de 2024, quando gerenciava cerca de 650 fundos e R$ 82 bilhões em ativos. O CNPJ manteve-se o mesmo, agora como QI Corretora de Títulos e Valores Mobiliários.

Agentes da Receita Federal estiveram na sede da QI Tech nesta quarta-feira (4) para coletar informações sobre os fundos por onde teriam passado as movimentações suspeitas.

Em nota, a fintech afirmou que os fatos investigados referem-se ao período entre 2016 e 2021, anterior à aquisição. A companhia diz ter atendido a uma demanda das autoridades, fornecendo informações para auxiliar as investigações, e reforça que não está sendo investigada.

O que vem pela frente

A Receita Federal deve fornecer dados para identificar cotistas e beneficiários finais dos fundos. Os investigadores ainda vão apurar a responsabilidade de cada elo da cadeia — frigoríficos, usinas, factorings, securitizadoras — e se tinham ciência de que comercializavam com noteiras.

O caso guarda semelhanças com a Operação Carbono Oculto, que expôs a infiltração do crime organizado no mercado financeiro via fundos de investimento. O processo corre em segredo de Justiça.

O que observar daqui para frente

Para gestores, investidores e compliance officers, o caso acende um alerta sobre a due diligence em administradoras de fundos e a rastreabilidade de lastros em operações de antecipação de recebíveis. A Receita e o MP sinalizam que a fiscalização sobre FIDCs usados como veículos de lavagem deve se intensificar. Monitorar se a CVM editará normas mais rígidas para administradoras e gestores — especialmente em fundos com pulverização de cotistas e lastros de setores sensíveis — será decisivo nos próximos trimestres.