A Heineken Brasil assinou nesta quarta-feira (4) os documentos para adquirir a Better Drinks, dona das marcas Praya, Mamba Water e Baer Mate. O valor da transação segue em sigilo, mas o movimento sinaliza uma aposta decisiva da gigante holandesa no segmento de bebidas “melhores para você” — categoria que cresce dois dígitos ao ano no país.
A conclusão ainda depende do aval do Cade. Enquanto isso, a operação já revela muito sobre a estratégia da segunda maior cervejaria do mundo para os próximos anos.
Por que a Heineken comprou quem já distribuía
A parceria comercial começou em 2024. A Heineken assumiu a distribuição nacional dos rótulos da Better Drinks e, em poucos meses, a capilaridade explodiu: de 10 mil pontos de venda para mais de 60 mil em 2025. O salto de 500% explica, sozinho, o interesse em internalizar a operação.
Com a compra, a multinacional elimina a intermediação, ganha controle total sobre precificação, marketing e inovação de portfólio — e blinda ativos que poderiam atrair a concorrência.
O ativo por trás das marcas: agenda ESG como diferencial competitivo
A Better Drinks nasceu em 2022 da fusão de quatro marcas (Baer Mate, Praya, Vivant e F!VE Drinks) com um manifesto centrado em sustentabilidade. A Praya carrega o selo de primeira cerveja carbono neutro do Brasil — credencial que a Heineken passa a ostentar no portfólio.
Em 2023, a empresa declarou ter surgido do encontro de pessoas que “procuravam atuar de forma mais consciente e criativa”. O discurso alinha-se à revisão de metas globais da Heineken, anunciada em setembro: redução de 10,3% no uso de água por hectolitro produzido até 2030.
Números que dimensionam o jogo
- 13 mil funcionários e 15 fábricas no Brasil (Heineken Brasil)
- Receita global 2025: € 34,2 bilhões (≈ R$ 200 bi)
- Posição global: 2ª maior cervejaria, atrás apenas da AB InBev
- Portfólio local: 14 marcas principais, de Heineken e Amstel a Baden Baden e Eisenbahn
A aquisição insere a Heineken diretamente na briga por consumidores que migram de cerveja mainstream para opções de menor teor alcoólico, funcionais ou com apelo ambiental — espaço hoje disputado por Ambev (com Beats, Beck’s, Corona Cero) e Grupo Petrópolis.
O que observar daqui para frente
A aprovação do Cade costuma levar de 60 a 180 dias. Até lá, a integração comercial segue como está. O termômetro real virá nos próximos balanços: se a Heineken conseguir replicar a escala de distribuição da Amstel para Praya e Mamba, o market share de “bebidas conscientes” pode mudar de dono em poucos trimestres.
Para investidores e gestores do setor, o sinal é claro: a fronteira entre cerveja tradicional e new-age beverages deixou de existir. Quem controlar a prateleira e a narrativa ESG levará a vantagem.
