O Open Finance atingiu 240 milhões de consentimentos ativos no Brasil, multiplicando por quase seis a base registrada no fim de 2023. O número revela uma infraestrutura madura, mas esconde um gargalo técnico que impede você de acessar juros menores hoje.
Enquanto a adesão das instituições ultrapassa 800 players, a efetividade na troca de dados trava em patamares preocupantes. Entender onde está o nó é essencial para quem busca crédito mais barato ou pretende investir no ecossistema financeiro.
O salto de escala que ninguém esperava tão cedo
Em dezembro de 2023, o sistema contabilizava 41,9 milhões de autorizações ativas. Em julho deste ano, o volume saltou para 240 milhões, segundo estudo da associação Zetta com dados da AtlasIntel. A marca consolida o Brasil como um dos maiores ecossistemas de dados financeiros abertos do mundo.
O crescimento não é apenas quantitativo. A base de instituições participantes — bancos, fintechs, cooperativas e sociedades de crédito — supera 800, criando uma malha de conexões que, em tese, permite ao consumidor levar seu histórico para onde quiser.
Na prática, isso significa que a promessa regulatória de 2019 virou infraestrutura real. Mas a existência dos canais não garante que a água chegue limpa na ponta.
O abismo entre saber que existe e saber usar
A pesquisa expõe um paradoxo: 81,9% dos brasileiros já ouviram falar do Open Finance, porém apenas 21% se consideram minimamente informados sobre como funciona. Metade da população desconhece funcionalidades já operantes, como a portabilidade de crédito com taxa reduzida.
- Portabilidade salarial: principal demanda citada (41,7% dos entrevistados).
- Comparação de tarifas: ferramenta nativa, mas subutilizada.
- Agregação de contas: visão unificada ainda restrita a apps de nicho.
Essa assimetria de informação protege as margens dos grandes bancos e posterga a queda real do custo do crédito para o varejo.
O desperdício invisível que encarece a operação
Mais de 60% das consultas automáticas por dados realizadas entre instituições são inúteis — acessos que não encontram atualização relevante. O modelo atual opera em “pull” recorrente, varrendo bases sem necessidade.
Se o sistema migrasse para um modelo de notificação por evento (push), enviando dados apenas quando houver alteração real, a eficiência saltaria para 93%. O tempo de atualização cairia de até 14 dias para 15 minutos.
Essa ineficiência técnica aumenta custos de processamento, latência e, indiretamente, o spread bancário repassado ao cliente final.
Taxa de sucesso de 57%: o gargalo que o Banco Central precisa atacar
O dado mais crítico para quem opera crédito: a taxa média de sucesso nas trocas de dados entre instituições é de 57%. Em alguns pares específicos, o índice despenca para 20%.
Isso significa que, em quase metade das tentativas, o histórico do cliente não chega a tempo de fundamentar uma oferta competitiva. A falha não é do consumidor, nem da instituição receptora — é de infraestrutura compartilhada.
A Zetta defende que a próxima fase regulatória foque em três eixos: experiência do usuário, performance técnica e eficiência operacional. A fiscalização ativa do Banco Central sobre a qualidade das APIs será o divisor de águas.
O que observar nos próximos trimestres
A consolidação dos 240 milhões de consentimentos prova que a adesão inicial está resolvida. O jogo agora é qualidade de execução. Acompanhe três indicadores:
- Evolução da taxa de sucesso das APIs (meta plausível: acima de 85%).
- Adesão ao modelo de notificação por evento (redução do “pull” inútil).
- Lançamento massificado de portabilidade de crédito 100% digital, sem assinatura física.
Para o empresário ou investidor, o sinal é claro: o ativo valioso não é mais o consentimento em si, mas a capacidade de transformar esse dado em decisão de crédito instantânea e barata. Quem resolver a “última milha” da interoperabilidade captura a margem.
