A tensão comercial entre Estados Unidos e Canadá abriu uma janela estratégica para o Brasil ampliar sua participação no mercado norte-americano. O efeito cascata já aparece nos números de exportação de carne bovina e pode se estender a outros segmentos do agronegócio.
Mas nem tudo são flores: a disputa também ameaça cadeias de suprimento consolidadas há décadas. Entender onde estão as oportunidades reais — e onde estão os riscos — separa quem apenas observa de quem lucra.
O tamanho do tabuleiro que está sendo virado
Em 2024, a corrente comercial agrícola entre americanos e canadenses movimentou US$ 64 bilhões (R$ 327 bilhões), praticamente empatada: US$ 32 bilhões para cada lado. Se isolarmos apenas produtos agrícolas, o volume cai para US$ 51 bilhões, com superávit dos EUA em US$ 28,7 bilhões.
Essa engrenagem envolve carnes, frutas, lácteos, etanol, rações pet e grãos. Qualquer travamento tarifário força os dois países a buscarem alternativas — e o Brasil surge como o substituto natural, repetindo o roteiro da disputa sino-americana.
Carne bovina: o ganho imediato já está na mesa
Os EUA importaram US$ 1,6 bilhão em carne bovina do Canadá no ano passado. Paralelamente, o déficit interno americano vem crescendo, empurrando as compras externas para cima. Entre janeiro e agosto de 2024, o Brasil embarcou 269 mil toneladas para os EUA, faturando US$ 1,8 bilhão (R$ 9,2 bilhões), segundo a Abiec.
O cenário de escassez e preços altos em ano eleitoral fez Trump anunciar isenção temporária para o produto brasileiro. É uma porta aberta — mas com prazo de validade incerto.
Outros setores onde o Brasil pode (ou ainda não pode) entrar
- Etanol: comércio de US$ 1,75 bi entre EUA e Canadá, dominado pelos americanos. O Brasil é líder global, mas barreiras técnicas e logísticas ainda limitam a entrada.
- Rações para cães e gatos: EUA exportaram US$ 1,2 bi ao Canadá. Setor em expansão no Brasil, com potencial de substituição de médio prazo.
- Frutas, legumes e lácteos: corrente de US$ 1,6 bi apenas em lácteos. Brasil ainda não tem escala ou estrutura sanitária para competir de igual para igual.
- Soja, farelo, óleo e sucos: domínio americano consolidado. Janela estreita para o Brasil.
A curva de crescimento das exportações brasileiras não mente
Os números mostram a trajetória clara de ganho de espaço. Em 2020, o Brasil vendia US$ 6,5 bilhões ao mercado americano e US$ 578 milhões ao canadense. Em 2024, saltaram para US$ 11 bilhões (R$ 56 bilhões) e US$ 1,3 bilhão (R$ 6,64 bilhões), respectivamente. Um avanço de 69% e 125% em quatro anos.
Do lado das importações, o Brasil gasta mais com o Canadá (US$ 1,7 bilhão, puxado por fertilizantes) do que com os EUA (US$ 1,5 bilhão). Isso revela dependência estratégica que a disputa pode pressionar.
O que observar daqui para frente
A isenção temporária para carne bovina brasileira é o termômetro imediato: se renovada ou ampliada, sinaliza que os EUA aceitam o Brasil como parceiro estrutural, não apenas emergencial. Acompanhe também as negociações de etanol e rações pet — setores onde a competitividade brasileira já existe, mas depende de harmonização regulatória.
Por fim, monitore o fluxo de fertilizantes canadenses. Qualquer interrupção eleva o custo de produção no Brasil e reduz a margem do ganho cambial nas exportações. O xadrez está montado. Quem move as peças com antecedência colhe o resultado.
