Quatorze das 32 marcas no Festival Interlagos 2026 são chinesas, transformando o autódromo paulistano na maior vitrine asiática já vista no Brasil. O movimento não é apenas numérico: traz picapes, SUVs de 900 cv e carregamento que promete 400 km em segundos. O que isso muda na sua próxima compra?
O evento, realizado entre 27 e 30 de agosto, funcionou como termo de posse de um novo ordenamento automotivo. Marcas estreantes como Baic, DFM, iCaur e Leapmotor dividiram espaço com gigantes consolidadas — BYD, GWM e Geely — para ditar o ritmo dos próximos 24 meses.
O choque de portfólio: de compactos a ‘super-SUVs’
A Geely, em sua estreia no festival, mostrou a amplitude da estratégia. O hatch EX2 (R$ 123.800 a R$ 136.800) ataca a entrada com 289 km de autonomia, enquanto o SUV EX5 EM-i aposta no híbrido plug-in para entregar 1.400 km combinados. Do outro lado do espectro, a submarca IM, da MG Motor, expôs o IM6: 767 cv, 0 a 100 km/h em 3,5 segundos e tela de 26,3 polegadas.
A briga pelos grandes SUVs ganhou contornos de guerra fria. A GAC trouxe o GS9 (R$ 399.990) com 500 cv; a GWM confirmou o Tank 400 (421 cv, entre R$ 400 mil e R$ 500 mil) para enfrentar o Toyota SW4; e a Jetour chocou com o G700 de 905 cv, capaz de flutuar em 90 cm de água. A iCaur, nova marca do grupo Chery, antecipou o V27 REEV de 455 cv e 1.000 km de autonomia para 2027.
Picapes e volume: a briga pelo bolso do trabalhador
Se o luxo chama atenção, o volume garante mercado. A BYD revelou a Mako, picape monobloco baseada no Song Pro com até 324 cv, mira direta na Fiat Toro, Ram Rampage e Ford Maverick. A estreia é prevista ainda para 2026.
No segmento de entrada, a Omoda prepara o E5 renovado para o último trimestre. A versão Elite deve partir de R$ 150 mil com bateria de 50,6 kWh. A irmã Jaecoo mostrou o Jaecoo 5 híbrido plug-in (224 cv combinados), posicionado abaixo do Jaecoo 7. A Leapmotor, braço chinês da Stellantis, confirmou o B10 REEV (218 cv, ~1.000 km) com porte superior ao Jeep Compass.
Tecnologia que muda a regra do jogo
O anúncio mais disruptivo não tem rodas. A Denza (submarca de luxo da BYD) apresentou carregadores Flash Charging de 1.500 kW (conector CCS2). A promessa: 10% a 97% de bateria em nove minutos — ou 400 km de autonomia em “poucos segundos”. Se a infraestrutura acompanhar, o argumento da “ansiedade de autonomia” cai por terra.
Outra frente é a arquitetura REEV (extensor de autonomia). iCaur V27, Leapmotor B10 e o conjunto Jaecoo/Omoda 5 usam motor a combustão apenas como gerador. O resultado: torque instantâneo, autonomia quadruplicada e ausência de ansiedade na tomada.
Produção local: a promessa que vale dinheiro
Duas estreantes deram o recado mais claro para a indústria nacional. A Baic (dona da Arcfox) confirmou fábrica no Brasil e dez lançamentos até 2028, começando com T1 e T5 em novembro. A DFM (Dongfeng), uma das “quatro grandes” estatais chinesas, prometeu idênticos dez modelos até 2028 via três marcas (DFM, Voyah, MHero), iniciando com Box (275 km Inmetro) e Vigo (302 km Inmetro).
- Geely EX2: 116 cv | 289 km | R$ 123.800 a R$ 136.800
- BYD Mako: até 324 cv | Picape monobloco | Estreia 2026
- GWM Tank 400: 421 cv | 76,5 kgfm | Final de 2026
- MG IM6: 767 cv | 0-100 em 3,5s | 2026
- Jetour G700: 905 cv | Imersão 90 cm | 2026
- Denza Flash Charging: 1.500 kW | 10-97% em 9 min
O que observar daqui para frente
A avalanche de especificações técnicas impressiona, mas o varejo decidirá no preço final e na rede de concessionárias. Muitos modelos (Tank 400, G700, IM6, Mako) ainda não têm tabela oficial. A capacidade das novatas (Baic, DFM, iCaur) de estruturar pós-venda no prazo prometido será o teste de fogo real. Para o consumidor, a lição é clara: espere os emplacamentos das primeiras unidades e compare custo total de propriedade — a guerra chinesa no Brasil acabou de começar de verdade.
