O Brasil abriu 121,3 mil postos formais em setembro, alta de 24,7% sobre agosto, mas o número esconde uma queda de 43,5% frente ao mesmo mês de 2025. O saldo positivo mascara uma desaceleração que já soma 27,9% a menos de vagas no acumulado do ano.
O dado do Caged divulgado nesta quarta-feira (4) levanta uma dúvida imediata: estamos diante de uma recuperação pontual ou de um mercado que perdeu fôlego estrutural?
O choque da comparação anual
Em setembro de 2025, o país havia gerado 214,6 mil vagas — quase o dobro do resultado atual. É o pior setembro da série iniciada em 2020, quando a metodologia do cadastro foi alterada.
Nos nove primeiros meses de 2026, o saldo acumulado chega a 1,25 milhão de empregos. No mesmo período do ano passado, eram 1,73 milhão. A diferença de quase 500 mil vagas reflete o peso dos juros altos e da atividade mais fraca sobre as decisões de contratação.
Onde os empregos nasceram — e onde morreram
Quatro dos cinco grandes setores tiveram saldo positivo. A exceção foi a agropecuária, que fechou 4.381 postos, comportamento típico para o mês de início de plantio.
- Serviços: 81.241 vagas (67% do total)
- Indústria: 19.285 vagas
- Comércio: 15.697 vagas
- Construção civil: 9.468 vagas
Dentro de serviços, o destaque vai para atividades administrativas e complementares (18,3 mil), saúde e assistência social (15,4 mil) e transporte e logística (13,2 mil). Na indústria, serviços especializados para alimentos puxaram 17 mil postos — sinal de preparação para a demanda de fim de ano.
O mapa regional: Nordeste puxa, Sul perde
Todas as cinco regiões criaram vagas, mas a distribuição é assimétrica. O Nordeste respondeu por 49,1 mil postos — 40% do total nacional. O Sudeste ficou com 39,4 mil.
No recorte estadual, 26 unidades da federação tiveram saldo positivo. São Paulo liderou (19,3 mil), seguido por Pernambuco (13,3 mil) e Alagoas (11,1 mil). O único estado no vermelho foi o Rio Grande do Sul, com menos 2,9 mil vagas, pressionado pelo fim da safra de fumo e retração no varejo.
Salário médio: estabilidade com viés de alta
A remuneração média de admissão em setembro foi de R$ 2.429,41. Praticamente estável frente a agosto (menos R$ 1,10), mas 1,88% acima de setembro de 2025 — um ganho real de R$ 44,90 em doze meses.
O estoque total de trabalhadores com carteira assinada chegou a 48,35 milhões, alta de 0,25% no mês e 1,65% no ano.
O que observar daqui para frente
O último trimestre costuma aquecer o varejo e a indústria de transformação, o que pode melhorar os números absolutos. Mas a taxa Selic em 13,75% ao ano mantém o custo de capital elevado, freando investimentos em expansão de quadro.
Dois sinais merecem atenção nas próximas leituras: a evolução do setor de serviços — que sustenta a maior parte das contratações — e o comportamento do comércio nas festas de fim de ano. Se a sazonalidade não compensar a base fraca de 2026, o saldo anual pode fechar abaixo de 1,7 milhão, patamar de 2023.
Para quem decide contratar, o recado é claro: o mercado ainda absorve mão de obra, mas a seletividade aumentou. O custo da vaga subiu, e a produtividade marginal do novo funcionário precisa justificar o salário de entrada acima de R$ 2,4 mil.
