Justiça

Damares diz “nunca” ao PL e expõe disputa por Michelle Bolsonaro

Senadora Damares Alves em sessão no Senado Federal, expressão séria
Damares Alves rejeita filiação ao PL e expõe disputa por Michelle Bolsonaro

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) cravou “nunca” ao ser questionada sobre uma eventual migração para o PL, horas depois de Valdemar Costa Neto, presidente da legenda, afirmar que a filiação ocorreria “em breve”. A resposta pública expõe, na verdade, uma disputa silenciosa pelo capital eleitoral de Michelle Bolsonaro.

A recusa que escancara a disputa

O bate-boca começou na terça-feira (3), quando Valdemar classificou como “bobagem” a articulação do Republicanos para atrair a ex-primeira-dama e decretou: “Vamos trazer a Damares”. A senadora não esperou 24 horas para devolver: “Nunca! Eu estou é convidando Michelle pra vir para o Republicanos”.

Marcos Pereira, comandante nacional do Republicanos, já havia sinalizado publicamente que as portas estão abertas para a esposa de Jair Bolsonaro. O movimento deixa claro: o alvo principal não é Damares, mas sim a cadeira que Michelle ocupará no Senado a partir de 2027.

Michelle Bolsonaro: o ativo mais valioso da direita

Os números explicam o assédio. Eleita com 38.496 votos (29%) — a maior votação da história do Distrito Federal —, Michelle carrega um capital político que ambos os partidos desejam internalizar. À frente do PL Mulheres, ela dobrou o número de filiadas entre 2023 e junho de 2026, segundo a própria ex-primeira-dama.

  • Maior votação da história do DF para o Senado
  • Dobrou a base feminina do PL em menos de quatro anos
  • Assumirá mandato em 2027 com status de liderança nacional

Para o Republicanos, filiá-la seria um golpe duplo: enfraquece o PL e fortalece a bancada própria no Congresso. Para Valdemar, mantê-la é questão de sobrevivência da hegemonia bolsonarista na sigla.

O vácuo deixado por Flávio e a corrida por 2030

A saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos criou um vácuo de liderança na oposição ao governo Lula. Michelle surge como nome natural para preencher esse espaço, mas não está sozinha.

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), admite publicamente a possibilidade de disputar a Presidência em 2030. Na semana passada, Michelle usou as redes sociais para defender Tarcísio de ataques de bolsonaristas mais radicais, sinalizando alinhamento — ou, no mínimo, pragmatismo.

Tarcísio de Freitas entra na equação

O governador paulista tem trânsito no centro político e aprovação alta em São Paulo, maior colégio eleitoral do país. Sua permanência no Republicanos fortalece o partido como alternativa viável ao PL para abrigar a direita institucional.

Se Michelle migrar, o Republicanos passaria a ter dois dos três principais nomes da oposição para 2030: ela e Tarcísio. O PL ficaria dependente de Jair Bolsonaro — inelegível até 2030 — e de uma base que, sem Flávio e sem Michelle, perde capilaridade feminina e gestão de máquina partidária.

O que observar nas próximas semanas

A definição do comando do PL Mulheres será o termômetro imediato. Michelle foi reconvidada a presidir o braço feminino da legenda; sua permanência ou saída dirá mais que qualquer declaração pública. Outro ponto: a movimentação de Marcos Pereira nos bastidores do Senado, onde Damares já opera como articuladora da bancada feminina do Republicanos.

Valdemar evitou detalhar negociações ao dizer “não posso falar mais”. No xadrez partidário, silêncio costuma significar que a partida ainda está aberta — e que o próximo lance pode vir de onde menos se espera.