O dólar ultrapassou R$ 5,48 após as eleições e já empurra para cima o custo de commodities essenciais — do pão da manhã ao cafezinho da tarde. O repasse ao consumidor não é imediato, mas a janela para evitar a alta está se fechando.
Na semana posterior ao segundo turno, a moeda americana acumulou valorização de 9,2%, atingindo o maior patamar desde dezembro de 2022. Analistas alertam: quanto mais tempo o câmbio permanecer pressionado, maior a probabilidade de o aumento chegar às gôndolas.
Soja e milho: o efeito cascata que começa no campo
O Cepea registrou que a saca de 60 kg da soja saltou de R$ 146,69 para R$ 152,45 no Paraná — alta de 3,9% em poucos dias. O milho, em Campinas, subiu 3%, passando de R$ 64,27 para R$ 66,19. Como ambos são base da ração animal, o impacto futuro recai sobre carnes, ovos e laticínios.
“Os preços da maioria das commodities que exportamos são formados de fora para dentro”, explica Gabriel Viana, da Safras & Mercado. A valorização cambial torna o produto brasileiro mais competitivo lá fora, elevando a cotação interna.
Dois fatores ainda seguram um avanço mais agressivo: o plantio da safra nova avança bem no Centro-Oeste e o governo prorrogou por 30 dias o subsídio ao diesel. Mas o El Niño ameaça lavouras no Sul nas próximas semanas.
Açúcar e trigo: a conta que chega na padaria
O açúcar cristal em São Paulo acumula 15 semanas consecutivas de alta — a sequência mais longa desde 2020. Na média semanal de 26 a 30 de outubro, a saca de 50 kg custava R$ 128,57, alta de 2,3% sobre a semana anterior.
No trigo, a oferta restrita de grãos de qualidade — prejudicada por chuvas na colheita gaúcha — soma-se ao dólar forte. O preço médio no Rio Grande do Sul subiu 2,2% em outubro, no maior nível nominal desde fevereiro de 2023.
- Soja (PR): +3,9% desde o 2º turno
- Milho (SP): +3,0% no mesmo período
- Açúcar cristal (SP): 15ª alta semanal seguida
- Trigo (RS): maior preço nominal em 8 meses
O arroz também sente o efeito: exportadores gaúchos adiam vendas à espera de cotações melhores, enquanto indústrias limitam compras diante da dificuldade de repasse.
Café: o dólar sustenta o preço mesmo com queda lá fora
O robusta atingiu R$ 975,32 a saca de 60 kg — 4,1% acima do pré-eleição. O arábica chegou a R$ 1.611,06, alta de 0,6%. O movimento cambial compensou a desvalorização no mercado internacional, mantendo o patamar interno elevado.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis definirão se o repasse ao consumidor se confirma: a trajetória do câmbio nas próximas reuniões do Copom, a evolução do El Niño nas lavouras do Sul e a política de subsídio ao diesel após o prazo de 30 dias. Se o dólar permanecer acima de R$ 5,40 por período prolongado, a pressão sobre a inflação de alimentos torna-se quase inevitável.
