A Gerdau confirmou a manutenção do setor de laminação em sua unidade de Divinópolis (MG), garantindo a permanência de aproximadamente 170 postos de trabalho, mesmo após anunciar o encerramento da etapa de produção de aço e o desligamento de 278 funcionários. A decisão saiu de uma negociação de mais de duas horas entre direção da empresa, sindicatos e o Ministério do Trabalho.
O superintendente regional do Ministério do Trabalho, Carlos Calazans, classificou o desfecho como um alívio para a região, que temia o fechamento total da planta. “Havia um grande temor de que a empresa fechasse e demitisse todos. A empresa decide fechar uma parte do processo industrial e vai manter toda a laminação”, afirmou após a reunião realizada no Poliesportivo da cidade.
O que muda na operação a partir de agora
A laminação — processo que transforma o aço bruto em produtos acabados como vergalhões e perfis — segue ativa. Já a siderurgia, etapa que consome mais energia e mão de obra, será desativada. A empresa alegou perda de competitividade frente a importados, sobretudo da Ásia, como motivo para o corte.
Calazans revelou que o Ministério vai monitorar a unidade na expectativa de que a Gerdau recupere margens e volte a contratar. “Espero que venham melhorar essa competitividade e readmitir”, disse. Não há prazo nem garantia de reativação da produção de aço.
Pacote de desligamento: o que os 278 trabalhadores recebem
Além das verbas rescisórias legais, a negociação assegurou benefícios extras que variam conforme o tempo de casa. Confira a estrutura:
- Todos os desligados: 3,5 salários nominais adicionais.
- Adesão ao PDV (Programa de Demissão Voluntária): indenização complementar escalonada:
- Até 14 anos e 11 meses: +6 salários.
- 15 a 19 anos: +7 salários.
- 20 anos ou mais: +8 salários (progressão a cada 5 anos).
O plano de saúde será mantido por seis meses, custeado pela empresa. Funcionários próximos da aposentadoria terão condições específicas, ainda não detalhadas publicamente.
Transferência para Ouro Branco é alternativa real
Parte do quadro pode ser realocada para a unidade de Ouro Branco (MG), a cerca de 150 km de Divinópolis. Quem aceitar a mudança terá 120 dias para avaliar a adaptação. Se não se ajustar, recebe o mesmo pacote de indenização dos que ficaram — sem prejuízo financeiro.
A cláusula foi desenhada para evitar que o trabalhador assuma o risco da mudança sem rede de proteção. Sindicatos consideram a medida positiva, mas alertam para o impacto familiar de uma eventual mudança de cidade.
Efeito cascata na economia local
Estudos preliminares apontam que o fim da produção de aço pode atingir até 2 mil empresas da cadeia de fornecimento e serviços na região. Comerciantes já relatam queda no movimento. A manutenção da laminação atenua o choque, mas não elimina a perda de renda circulante.
O prefeito de Divinópolis e entidades de classe prometem pressionar por incentivos estaduais e federais que tornem a siderurgia competitiva novamente. A lógica: sem a etapa de produção de aço, a cidade perde arrecadação de ICMS e atratividade para novos investimentos industriais.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis ditarão o rumo da unidade: (1) câmbio e tarifas de importação — se o real se valorizar ou houver barreiras comerciais, a competitividade melhora; (2) demanda por vergalhões no mercado interno, puxada por obras de infraestrutura; (3) disposição da Gerdau em alocar capital para reativar o alto-forno, decisão que passa pelo conselho global da empresa.
Enquanto isso, o Ministério do Trabalho marcou novas rodadas de acompanhamento trimestrais. A primeira ocorre em 90 dias. Para o trabalhador que ficou, o recado é claro: a laminação garante o emprego hoje, mas a estabilidade de longo prazo depende de fatores fora do controle local.
