O óleo de soja acumula alta de 145% desde 2020, quase o dobro da inflação geral dos alimentos no período. O vilão não está na cozinha, mas no tanque de diesel: a corrida por segurança energética transformou óleos vegetais em commodities estratégicas globais.
Dados consolidados mostram que apenas Tailândia, Brasil e Estados Unidos devem consumir 34,3 milhões de toneladas de óleo vegetal como combustível este ano. O número representa um salto de 122% em relação a 2020. Se a União Europeia for incluída, a demanda salta para 40,3 milhões de toneladas.
O gatilho geopolítico que mudou a regra do jogo
Durante duas décadas, o biodiesel avançou sob a bandeira da descarbonização. O estrangulamento no fornecimento de petróleo provocado por conflitos recentes, however, forçou governos a elevarem a mistura obrigatória como medida de soberania energética. O resultado imediato foi a competição direta entre o prato e o tanque.
A Indonésia lidera o movimento radical: desde julho, o país adota 50% de óleo de palma no diesel (B50). A projeção é consumir 17,4 milhões de toneladas em 2024, contra 7,2 milhões em 2020. Malásia e Tailândia seguem o ritmo com misturas de 20%.
Brasil e EUA: a dobradinha da soja
No Brasil, a implementação do B16 (16% de mistura) prevista para março deve dobrar o consumo interno de óleo de soja: de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas. Nos Estados Unidos, a expansão recente do sistema energético empurra a demanda de 5 para 8,1 milhões de toneladas.
O crescimento acumulado em 15 anos impressiona:
- EUA: alta de 913% no uso de óleo de soja para biodiesel;
- Brasil: avanço de 383% no mesmo período.
Essa puxada de demanda dá suporte direto à expansão da oleaginosa no campo. A safra global de soja saltou de 261 milhões de toneladas (2010/11) para uma projeção de 443 milhões em 2026/27, segundo o USDA. O Brasil, sozinho, deve colher 182 milhões nesta safra, contra 75 milhões há 15 anos.
O gargalo que aperta a Índia e o bolso do consumidor
Mas o efeito colateral mais agudo aparece na segurança alimentar. A Índia importa cerca de 16 milhões de toneladas de óleos vegetais por ano para alimentação. Com a disputa acirrada pela matéria-prima, os estoques globais encolheram e os preços internacionais dispararam.
Não por acaso, a Fipe registra que, para uma inflação média de alimentos de 73% desde 2020, o óleo de soja subiu 145%. O movimento combina quebra de safra, redução de estoques e a nova ancoragem de preço ditada pelo setor de combustíveis.
A aposta na macaúba e o que observar daqui para frente
A busca por produtividade por hectare coloca a macaúba no radar: a palmeira nativa tem potencial de render de 7 a 10 vezes mais óleo por área que a soja. Se viabilizada em escala, pode aliviar a pressão sobre a oleaginosa tradicional.
Para os próximos meses, três variáveis ditam o cenário: a efetiva adoção do B16 no Brasil em março, a manutenção do B50 na Indonésia e o clima nas lavouras americanas e brasileiras. Qualquer desvio nessas frentes reprecifica o óleo vegetal instantaneamente — seja na bomba, seja na gôndola do supermercado.
