Meio Ambiente

Favelas triplicam área urbana e perdem verde: o risco climático que ninguém vê

Favela densa com pouca vegetação, ilustrando expansão urbana e risco climático periferias
Imagem mostra favela com alta densidade de concreto e escassez de áreas verdes, reflexo da triplicação urbana em 40 anos.

A área urbanizada em favelas brasileiras saltou de 60,2 mil para 151,7 mil hectares em quatro décadas, enquanto a vegetação por hectare caiu 33%. O resultado: territórios cada vez mais expostos a ondas de calor e enchentes.

Os números inéditos vêm da Coleção 11 do MapBiomas, divulgada esta semana. Pela primeira vez, a série histórica revela que o concreto superou o verde nas cidades — e a conta chega mais caro nas periferias.

A inversão silenciosa da cobertura vegetal

Em 1985, favelas tinham 43% mais vegetação intraurbana que o restante das áreas urbanizadas. Em 2025, o cenário virou: agora elas contam com 15% menos verde que a média das cidades formais.

Enquanto a vegetação nas áreas formais cresceu 2,6 vezes no período, dentro das comunidades o aumento foi de apenas 1,7 vez. Em contrapartida, o solo exposto — asfalto, laje, terra batida — expandiu 2,6 vezes nas favelas, contra 2,3 vezes fora delas.

  • 12,3 mil favelas mapeadas em 651 municípios (2025)
  • 60,3% da urbanização atual surgiu após 1985
  • 42,4% das comunidades pelo menos dobraram de tamanho

Ilhas de calor: a conta climática chega primeiro na periferia

O cruzamento com dados de temperatura mostra o impacto direto. Em áreas com menos de 10% de cobertura vegetal, o verão registra até 7 °C a mais que em zonas não urbanizadas com mata preservada.

“Para adaptar as cidades às mudanças climáticas, precisamos olhar onde o verde se perdeu e onde os territórios ficam mais expostos. Esse mapa precisa incluir as favelas”, afirma Júlio Cesar Pedrassoli, coordenador do tema Urbano do MapBiomas.

O marco histórico que passou despercebido

Em 1985, a vegetação urbana total era 3,5 vezes maior que a área sem vegetação. Em 2025, a relação inverteu: o solo exposto (4,24 milhões de hectares) superou o verde urbano (4,1 milhões de hectares). A perda total de vegetação — intraurbana e periurbana — foi de 35,9% no período.

O crescimento das manchas urbanas no país foi de 132% (1,9 para 4,4 milhões de hectares), mas a fatia das favelas no total mal se moveu: de 3,2% para 3,4%. Ou seja, a expansão periférica acompanhou a média nacional, mas com qualidade ambiental muito inferior.

O que observar daqui para frente

Três variáveis devem ditar os próximos ciclos de planejamento urbano e investimento em infraestrutura verde:

  • Políticas de arborização e parques lineares priorizando municípios com maior déficit vegetal em favelas
  • Linhas de financiamento climático (ex.: Fundo Amazônia, BNDES Verde) com critérios de justiça territorial
  • Integração de dados de satélite (MapBiomas, INPE) aos planos diretores municipais — hoje, a maioria ignora a dinâmica intracomunitária

O mapa está dado. A próxima decisão — de prefeitos, investidores e gestores de fundos — definirá se as favelas continuam como ilhas de calor ou viram laboratórios de resiliência baseada na natureza.