A partir de 16 de dezembro, a escala 6×1 deixa de existir. No lugar, entra a jornada 5×2 com semana de 42 horas — e o efeito colateral já assombra mesas de negociação: reajustes acima da inflação e benefícios como plano de saúde corporativo entram na mira do corte de custos.
Especialistas ouvidos pela reportagem alertam: a combinação de folga extra remunerada com alta médica projetada entre 9% e 11% para 2025 cria uma equação perigosa para o caixa das empresas.
O que muda na prática a partir de dezembro
A nova regra reduz a jornada semanal de 44 para 42 horas e garante dois dias de descanso remunerado. Para setores que não param — comércio, saúde, indústria contínua —, isso significa contratar mais gente ou pagar horas extras. Em ambos os casos, a folha de pagamento incha.
Levantamento do Salariômetro (Fipe/USP) em 37 mil negociações recentes mostra que 81% dos acordos continham cláusulas sobre jornada, com média de cinco itens por documento. Cada ponto vira moeda de troca.
Plano de saúde: o alvo mais visível
Segundo a Marsh Health and Benefits Brasil, os convênios corporativos devem subir entre 9% e 11% no próximo ano. Em 2027, a pressão deve aumentar. Para o advogado trabalhista Antonio Galvão Peres (USP), a conta fecha mal:
- Custo adicional da jornada reduzida
- Reajuste médico de dois dígitos
- Fim da ultratividade (benefícios expiram com o acordo)
“Quando a vigência acaba, se não há novo acordo válido, o trabalhador perde o benefício. Vale para o bem e para o mal”, resume Peres.
O fator reforma trabalhista que ninguém comenta
Desde 2017, a ultratividade não existe mais. Isso dá ao empregador uma alavanca: ao fim do acordo coletivo, tudo pode ser renegociado do zero. Em ciclos de alta econômica, sindicatos avançam. Em ciclos de custo pressionado, empresas recuam — e a lei permite.
O sociólogo Clemente Ganz Lúcio, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, vê risco de “terceirização da culpa”: empresários podem culpar a mudança de jornada por cortes que fariam de qualquer forma. “Há quem faça horrores e queira usar o governo como bode expiatório”, afirma.
Dados recentes já mostram freio nos ganhos reais
O Salariômetro de setembro e outubro aponta desaceleração nos reajustes acima da inflação. O economista Hélio Zylberstajn (USP/Fipe) é direto: “As empresas vão ser muito mais duras nas concessões, porque terão de reduzir o custo do trabalho”.
O cenário macro não ajuda: inflação projetada mais alta para 2025 comprime o espaço para ganho real.
O contraponto: onde a produtividade pode salvar a negociação
Zylberstajn defende trocar aumento de produtividade por preservação de benefícios. Dados do Dieese até setembro mostram que 86% dos reajustes de 2024 ficaram acima do INPC, com ganho real médio de 1,08%. Comércio, indústria e serviços tiveram ganhos em 87% dos casos; no rural, 72%.
Mas o próprio Dieese admite: o cenário macroeconômico favorável de 2024 pode não se repetir.
O que observar nos próximos 90 dias
As centrais sindicais organizam plenárias de emergência para orientar negociações setoriais. O primeiro grande teste será o comércio no Natal — setor que não pode fechar e absorve o impacto cheio da nova escala.
Três variáveis decidirão se seu plano e seu reajuste sobrevivem intactos:
- Capacidade do seu sindicato de fechar acordo antes do fim da vigência atual
- Margem de produtividade real do seu setor para compensar a hora a menos
- Disposição da empresa de internalizar o custo ou repassar ao benefício
Quem acompanha de perto as assembleias e lê a íntegra do acordo coletivo sai na frente. O resto descobre no contracheque — ou no boleto do convênio.
