O maior banco digital do Paraguai entrou em colapso regulatório e derrubou o presidente do Banco Central em menos de 24 horas. Carlos Carvallo pediu demissão nesta terça-feira (3) enquanto o Ministério Público ordenava a prisão de oito pessoas ligadas ao Ueno Bank. A instituição, que movimenta cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, viu seu índice de solvência despencar para menos da metade do piso exigido por lei.
A crise expõe conexões diretas entre o sistema financeiro, o governo Santiago Peña e o Grupo Vázquez, controlador do banco. O estrago já contaminou os títulos soberanos paraguaios em dólar e levanta dúvidas sobre a solidez de um dos destinos favoritos do capital brasileiro na região.
O que aconteceu nas últimas horas
O gatilho foi a divulgação de balanços ajustados que revelaram a fragilidade patrimonial do Ueno. Com 3 milhões de clientes — quase metade da população economicamente ativa do país —, o banco é o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai e operador exclusivo de benefícios previdenciários e salários de servidores.
Diante do rombo, o Banco Central ativou um procedimento de emergência para blindar depositantes e conter contágio sistêmico. Em paralelo, a Promotoria abriu investigação criminal e decretou as prisões. Agências amanheceram fechadas, deixando aposentados e beneficiários do IPS (Instituto de Previdência Social) sem acesso ao dinheiro.
- Índice de solvência: abaixo de 50% do mínimo regulamentar
- Recursos públicos sob gestão: ~US$ 850 milhões
- Clientes afetados: aproximadamente 3 milhões
- Prisões decretadas: 8 pessoas ligadas à instituição
O elo político que complica tudo
Carvallo comandou o próprio Ueno até agosto de 2023, antes de assumir o Banco Central. Parlamentares já vinham cobrando a cabeça dele por considerarem a supervisão do banco frouxa — um relatório recente do BC foi rejeitado pelo Congresso por “incompleto”.
O presidente Peña, por sua vez, foi sócio do Grupo Vázquez até março de 2025. A proximidade histórica entre o mandatário, o ex-presidente do BC e o controlador do banco transformou o caso em crise de legitimidade política, não apenas financeira.
Medidas de contenção e o Fundo de Garantia
Para evitar corrida bancária generalizada, Peña fechou acordo com lideranças do Congresso para acelerar a votação de projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia de Depósitos no pagamento aos correntistas. A promessa: devolver 100% dos recursos públicos, incluindo valores do IPS e de outros fundos previdenciários.
“Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”, disse Peña em pronunciamento. O Banco Central reforçou o discurso de “caso isolado” e anunciou que a Superintendência de Bancos nomeará auditores independentes para vasculhar os ativos do Ueno.
Reação dos mercados e o risco país
O medo de contágio bateu forte nos papéis em dólar do Ueno com vencimento em 2031 e nos títulos soberanos do Paraguai. Investidores estrangeiros — muitos deles fundos brasileiros — monitoram se a crise respinga na classificação de risco do país, hoje em grau de investimento nas três grandes agências.
A trajetória do Ueno lembra a de fintechs que viraram bancos médios em tempo recorde: de plataforma de nicho a gigante com carteira de crédito massiva em poucos anos. O crescimento acelerado, agora se sabe, escondeu falhas de governança e controles internos frágeis.
O que observar nas próximas semanas
Três frentes definirão o desfecho: a velocidade da votação do Fundo de Garantia no Congresso, a profundidade da auditoria independente sobre os ativos do Ueno e o alcance da investigação criminal — que pode revelar se houve desvio de finalidade nos recursos públicos ou apenas gestão temerária.
Para quem tem exposição ao Paraguai — seja via dívida soberana, fundos de investimento ou operações de comércio exterior —, o sinal de alerta está ligado. A solidez do sistema financeiro paraguaio será testada pela primeira vez em anos. A resposta das autoridades nas próximas 72 horas dirá se o “caso isolado” permanece isolado ou se vira crise sistêmica.
