Economia

O segredo que dobrou o preço do óleo de soja no mundo…

Gráfico mostra alta do preço do óleo de soja impulsionada por demanda de biodiesel
Demanda por biodiesel eleva preço do óleo de soja em 122% desde 2020

A demanda por óleos vegetais para mistura no diesel explodiu 122% em três grandes economias desde 2020, consumindo 34,3 milhões de toneladas que antes iam para a mesa. Esse desvio silencioso está reescrevendo as regras do jogo para o agronegócio e para o bolso do consumidor.

Guerras e instabilidade no fornecimento de petróleo forçaram uma guinada radical: a segurança energética suplantou a bandeira ambiental como motor do biodiesel. O resultado é uma corrida global por óleo de soja e palma que conecta o tanque do caminhão ao preço da gôndola.

O tanque virou o maior concorrente da cozinha

Indonésia, Malásia e Tailândia elevaram a mistura obrigatória para patamares entre 20% e 50% de óleo de palma. Sozinha, a Indonésia deve consumir 17,4 milhões de toneladas em 2024 — mais que o dobro de 2020. No Ocidente, o movimento é semelhante:

  • Brasil: Salto de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas de óleo de soja com o B16 previsto para março.
  • EUA: Aumento de 5 para 8,1 milhões de toneladas impulsionado por novos incentivos energéticos.
  • União Europeia: Consumo estagnado em 6 milhões de toneladas, mas mantendo pressão de base.

Somados, esses blocos demandam 40,3 milhões de toneladas anuais. O efeito imediato é um chão de preços mais alto para o produtor, mas uma conta mais salgada para a indústria de alimentos.

Soja: a oleaginosa que não para de crescer

A oferta tenta acompanhar. A safra mundial de soja deve saltar de 261 milhões de toneladas (2010/11) para 443 milhões em 2026/27, segundo o USDA. O Brasil protagoniza essa expansão: saiu de 75 milhões para projetados 182 milhões no mesmo período, conforme a Conab.

Esse volume sustenta a produção global de 243 milhões de toneladas de óleos vegetais, onde soja (75 mi) e palma (79 mi) reinam absolutas. Canola e girassol completam o quadro com 38 e 24 milhões, respectivamente. Mas o apetite do setor de combustíveis cresce mais rápido que a área plantada.

O impacto direto no índice de preços

Desde 2020, a inflação média dos alimentos acumula 73%. O óleo de soja, porém, dispara sozinho: alta de 145% no período, segundo a Fipe. Não é coincidência. A quebra de safra, estoques apertados e a nova ancoragem da demanda no diesel criaram uma pressão estrutural.

Para a Índia, maior importadora mundial, o cenário é crítico. O país compra cerca de 16 milhões de toneladas de óleos por ano para alimentação. Cada ponto percentual a mais na mistura do diesel em grandes produtores reduz a oferta disponível para exportação, empurrando o prêmio de importação indiano para cima.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se o óleo volta a patamares “normais” ou se o novo piso se consolida. Primeiro, a implementação efetiva do B16 no Brasil em março — qualquer atraso alivia a demanda imediata. Segundo, a capacidade da Indonésia de sustentar o B50 sem racionar o mercado interno de alimentos. Terceiro, a entrada comercial da macaúba, palmeira nativa com potencial de render 7 a 10 vezes mais óleo por hectare que a soja.

Enquanto a nova origem não escala, a equação permanece simples: cada caminhão rodando com biodiesel alto é uma garrafa a menos na prateleira. Para o investidor, o sinal é claro — margens de esmagamento de soja tendem a se manter pressionadas para cima, mas a volatilidade do spread entre farelo e óleo exige gestão ativa de risco.