A simples notícia de que o presidente Lula receberia o economista André Lara Resende (ALR) detonou uma guerra de narrativas nas redes sociais durante o feriado, expondo uma fratura profunda entre defensores de uma “política econômica sensata” e críticos do que chamam de “terrorismo de mercado”.
Mas, além do ruído político, há um mecanismo técnico silencioso que já opera nos bastidores: a simples expectativa de uma guinada heterodoxa acelera a desvalorização do real e pressiona a curva de juros longos antes mesmo de qualquer caneta ser assinada.
O que está por trás da proposta “NEP”
O estopim foi um artigo publicado por ALR em setembro. A proposta central cria um Conselho Fiscal e Monetário com mandato de 4 a 5 anos, encarregado de travar metas de inflação, fiscal e taxas de juros tabeladas em patamares baixos.
Na prática, isso exige o fim da independência do Banco Central e a fusão da política monetária com a fiscal sob um “planejador central”. Para que funcione, seriam necessárias mudanças legislativas profundas, incluindo poderes de emissão monetária para financiar o Tesouro e intervenção direta em taxas além da Selic.
Por que o mercado antecipa o colapso cambial
A lógica é implacável para quem precisa proteger capital. Se juros reais negativos e metas fiscais frouxas viram regra, a conta fecha apenas com desvalorização cambial. Veja a cadeia de transmissão:
- Expectativa de inflação sobe → investidor exige prêmio maior nos títulos longos (NTN-Bs disparam).
- Fuga de ativos em reais → pressão imediata sobre o dólar.
- BC intervém vendendo reservas → subsidia a saída de capital (“vende dólar barato”).
- Reservas caem → risco-país explode e a defesa da moeda torna-se insustentável.
Em economia aberta sem controle de capitais, não é possível fixar juro nominal e câmbio ao mesmo tempo. A tentativa de segurar o dólar queimando reservas replica a dinâmica que levou à maxidesvalorização de 1999.
O efeito dominó na dívida e no investimento
Mas o câmbio é apenas a ponta do iceberg. Com a perda de credibilidade, o Tesouro deixa de conseguir alongar o perfil da dívida. O resultado prático:
- Rolagem concentrada no curtíssimo prazo (aumento do risco de liquidez).
- Encarecimento do crédito para empresas (juros reais longos nas alturas).
- Paralisia de investimentos produtivos → queda de emprego e salário real.
Em cenários de estresse agudo, a história latino-americana mostra que o passo seguinte costuma ser controle de preços e controle de capitais — medidas que transformam recessão em depressão prolongada.
A armadilha institucional do “Conselho Supremo”
Há ainda um ponto cego na arquitetura proposta: um colegiado não eleito, com poderes superiores ao Executivo legitimado nas urnas, decidindo emissão de moeda e juros. Isso não é detalhe jurídico; é uma ruptura do regime macroeconômico vigente desde 1999.
Qualquer transição nessa direção exige aprovação no Congresso e sobrevivência a questionamentos no Supremo. O custo de incerteza jurídica, somado ao custo econômico, costuma ser pago antecipadamente pelo setor privado via prêmio de risco.
O que observar daqui para frente
Não há sinal de que o governo adotará a risca o desenho de ALR. No entanto, cada declaração de autoridade endossando “juros baixos por decreto” ou “meta fiscal flexível” funciona como gatilho adicional na curva de juros e no dólar.
Para o gestor de risco ou empresário, os sinais de alerta claros são: velocidade de queda das reservas internacionais, abertura dos prêmios nas NTN-Bs de 2035+ e qualquer movimentação legislativa visando alterar a Lei Complementar 179 (autonomia do BC). Enquanto a regra do jogo for “expectativa de mudança de regime”, o custo de capital no Brasil continuará embutindo um prêmio de caos que nenhum plano de investimento consegue ignorar.
