O ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi direto ao ponto: não há nenhuma proposta de tabelamento de juros na mesa do governo Lula. A declaração, dada nesta terça-feira, tenta acalmar o mercado após dias de especulação intensa.
Mas o que realmente importa para quem acompanha a economia é o que vem depois: o governo assumiu publicamente que prepara um “ajuste gradual” nas contas públicas. A expressão não é acidental.
O estopim da crise: um artigo e uma deputada
Tudo começou em 25 de setembro. O economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, publicou artigo propondo a criação de um Conselho Fiscal e Monetário. A ideia: coordenar política fiscal e monetária, com meta de levar a Selic para 7,5% em 12 meses e, depois, para algo entre 3% e 5,5%.
No domingo, a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) elogiou publicamente o texto. Chamou as ideias de essenciais para enfrentar o que classificou como “ofensiva terrorista sobre a política fiscal”. O mercado não gostou.
O que Durigan disse — e o que não disse
O ministro foi taxativo em três frentes:
- Não há reunião marcada entre Lula e Lara Resende.
- A proposta tem “vários problemas” e está em estágio “incipiente”.
- O ajuste fiscal será gradual, respeitando compromissos de campanha e progressividade.
Durigan admitiu que as discussões sobre corte de gastos só chegaram à mesa do presidente na semana passada. O desafio declarado: conciliar responsabilidade fiscal com as promessas sociais da campanha.
O fantasma do medo do mercado
“Não estamos tratando de nada que justifique ao mercado ter uma posição de medo”, afirmou o ministro. A frase soa como resposta direta à disparada do dólar e às apostas crescentes de que o Banco Central pausará o corte da Selic nas próximas reuniões.
Analistas ouvidos reservadamente dizem que a desconfiança não vem do artigo de Lara Resende em si, mas da sinalização política: a ala do PT mais à esquerda ganha espaço no debate público justamente quando o arcabouço fiscal precisa de credibilidade.
Imposto Seletivo: a próxima batalha
Enquanto o ajuste fiscal amadurece, Durigan tem reunião marcada com Lula ainda hoje para fechar a Medida Provisória do Imposto Seletivo (IS). A promessa: a carga tributária de 2027 será a mesma de hoje.
A MP pode ser enviada ao Congresso nas próximas horas. O texto define alíquotas do “imposto do pecado” — cigarro, bebidas açucaradas, veículos poluentes — e é peça central da regulamentação da reforma tributária.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o humor dos próximos dias: a reação do Congresso à MP do Imposto Seletivo, o detalhamento do “ajuste gradual” (cortes? revisão de benefícios? nova regra para o salário mínimo?) e a ata do Copom, que sai na quinta-feira.
Se o governo conseguir mostrar números — não apenas adjetivos — o “medo” citado por Durigan pode arrefecer. Caso contrário, a Selic para em 10,5% e o dólar testa novos patamares. O mercado já precificou ceticismo. A bola está com a Fazenda.
