A Refinaria de Paulínia (Replan) encerrou setembro com sete meses consecutivos processando mais de 2 bilhões de litros de derivados, a maior sequência anual desde 2014. A média atual de 2,25 bilhões de litros mensais supera o pico histórico de uma década atrás. O motor dessa aceleração, no entanto, não está no pré-sal, mas na instabilidade do Oriente Médio.
Dados da ANP mostram que, entre março e setembro de 2026, a unidade manteve desempenho acima do patamar de 2 milhões de metros cúbicos. Em 2014, a marca durou dez meses, mas com volume médio inferior: 2,14 bilhões de litros. A diferença de 110 milhões de litros por mês equivale, na prática, a uma refinaria média operando embutida na maior do país.
Os números que colocam 2026 no topo da série histórica
Quatro dos cinco maiores volumes mensais registrados desde 2000 saíram este ano. A liderança isolada pertence a agosto, com 2,36 bilhões de litros. O top 5 revela a consistência da operação:
- Agosto/2026: 2,36 bilhões de litros
- Maio/2026: 2,35 bilhões de litros
- Março/2026: 2,32 bilhões de litros
- Julho/2026: 2,31 bilhões de litros
- Outubro/2025: 2,24 bilhões de litros (único mês fora de 2026 no ranking)
Para investidores e gestores de supply chain, o recado é claro: a capacidade ociosa da Replan secou. A unidade opera no limite técnico atual de 69 mil m³/dia (434 mil barris), respondendo por 30% do abastecimento nacional.
Por que a instabilidade lá fora bate recordes aqui dentro
A Petrobras confirmou ao mercado que a escalada da produção é resposta direta ao conflito no Oriente Médio. A volatilidade no suprimento internacional e o risco logístico forçaram a estatal a maximizar o refino próprio para garantir segurança energética interna.
Essa decisão estratégica transforma a Replan no principal amortecedor de choques externos. Enquanto importadores correm atrás de navios, Paulínia injeta volume extra no sistema — sobretudo diesel S-10, gasolina e QAV — mantendo os terminais internos abastecidos mesmo com o câmbio pressionado.
Capacidade ociosa? Não mais: o plano para 2027
Com a planta no talho, a expansão aprovada para 2027 deixa de ser opcional e vira necessidade crítica. O projeto eleva a capacidade de processamento de 434 mil para 459 mil barris/dia — um ganho de 5% que, na escala da Replan, representa 25 mil barris adicionais diários.
Para efeito de comparação, a segunda maior refinaria do país, a Revap (São José dos Campos), processa 40 milhões de litros/dia. O incremento planejado para Paulínia sozinho equivale a mais da metade da capacidade total da concorrente paulista.
Diesel S-10 e a rota da autossuficiência prometida para 2030
Em maio de 2025, entrou em operação a nova Unidade de Hidrotratamento de Diesel (HDT-D). São 63 mil barris/dia de diesel S-10 — 10 milhões de litros diários, volume suficiente para mover 20 mil ônibus urbanos com tanque de 500 litros.
O movimento alinha-se à meta declarada pelo presidente da Petrobras ao governo: autossuficiência em diesel até 2030. Hoje, o diesel lidera a pauta de exportações da refinaria, mas o portfólio diversificado reduz risco de concentração:
- Gasolina e querosene de aviação (QAV)
- GLP (gás de cozinha)
- Óleos combustíveis e asfaltos
- Enxofre (insumo para cosméticos e fertilizantes)
- Propeno (base para plásticos e borrachas, incluindo pneus)
A logística de escoamento segue desenhada para o interior: 55% ficam em São Paulo, o restante abastece Sul de Minas, Triângulo Mineiro, Centro-Oeste, Norte e Brasília.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo. Primeiro, a conclusão da ampliação em 2027: atrasos travariam a oferta num cenário de demanda firme. Segundo, a geopolítica: uma distensão no Oriente Médio pode reduzir a premissa de “produção máxima” e abrir espaço para importações mais baratas. Terceiro, a curva de consumo de diesel no agronegócio e transporte de cargas — se o PIB surpreender para cima, a Replan chegará a 2027 já no limite expandido.
Para quem gere estoques ou precifica fretes, o sinal é monitorar a taxa de utilização mensal da ANP. Enquanto ela permanecer acima de 95%, a margem de manobra do mercado interno continua apertada.
