O dólar fechou a terça-feira (3) a R$ 5,486, alta de 0,74%, enquanto o Ibovespa despencou 1,42% para 165.528 pontos — a sexta queda seguida desde a reeleição. A combinação empurrou a moeda para a máxima de R$ 5,509 e a bolsa para o menor nível desde janeiro.
O gatilho imediato é a reunião do Copom que começa amanhã, mas a raiz do movimento está na desconfiança fiscal que se acumulou nas últimas duas semanas.
Por que o real virou alvo preferencial
Três vetores explicam a pressão simultânea sobre câmbio e ações:
- Fiscal: o mercado precifica risco de expansão de gastos sem contrapartida de receita.
- Monetário: o Boletim Focus desta terça elevou a projeção de IPCA para 2027 a 4,76% — acima do teto da meta (4,5%) — e a Selic terminal para 12,50%.
- Externo: o DXY subiu 0,13% a 101,850 pontos, ampliando a fuga de emergentes.
O ministro Dario Durigan negou pela manhã que as propostas de André Lara Resende estejam em discussão, mas a mera menção a mudanças no regime monetário funcionou como catalisador de venda.
O efeito nas ações que todo mundo carrega
Petrobras e Vale, as duas maiores posições do índice, puxaram a queda. A petroleira sofreu com ajuste no petróleo após o feriado; a mineradora, com a desaceleração chinesa no radar. Juntas, responderam por cerca de 40% dos pontos perdidos no pregão.
Desde o dia 25 de outubro, o Ibovespa acumula desvalorização superior a 19%. Quem comprou no fechamento pré-eleitoral (acima de 205 mil pontos) vê agora perdas nominais de quase 40 mil pontos.
O que o comunicado de amanhã pode mudar
A Selic está em 13,75% ao ano. A expectativa majoritária é de manutenção, mas o tom do comunicado definirá os próximos passos:
- Tom duro (hawkish): sinaliza alta adicional ou manutenção prolongada → dólar pode recuar, bolsa alivia.
- Tom dovish ou omissão fiscal: reforça prêmio de risco → nova perna de alta no câmbio e pressão sobre a curva de juros.
O mercado também monitorará a projeção do BC para o hiato do produto e a taxa de câmbio de equilíbrio no cenário de referência.
Agenda da semana: o que observar daqui pra frente
Além da decisão de quarta-feira (4), três eventos ditam o ritmo:
- Quinta (5): ata do Copom e dados de emprego nos EUA (payroll).
- Sexta (6): IPCA-15 de novembro — termômetro da inflação corrente.
- Próxima semana: divulgação do Relatório Fiscal e votação do arcabouço no Senado.
Se o BC sinalizar que a política monetária fará o “trabalho sujo” sozinha, sem ancoragem fiscal crível, a barreira de R$ 5,55 no dólar deixa de ser teto e vira piso. Para o investidor, a lição prática: posicione-se para volatilidade, não para direção única.
