Economia

O segredo do gás 25% mais caro na Bahia após privatização

Botijão de gás GLP com etiqueta de preço alto na Bahia após privatização da Refinaria Mataripe
Estudo mostra gás 25% mais caro na Bahia desde a privatização da Refinaria de Mataripe.

Um estudo revela que a promessa de preços menores com a privatização da Refinaria de Mataripe não se confirmou: os combustíveis seguem mais caros que os da Petrobras. A diferença assusta, especialmente no botijão de gás. Mas o cenário recente trouxe uma reviravolta que ampliou ainda mais essa conta para o consumidor baiano.

Os números que contradizem o discurso oficial

Levantamento do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) comparou os valores praticados pela Acelen, atual operadora da unidade, com os da estatal no período posterior a 2021. O diagnóstico é direto: em todos os produtos analisados, a refinaria privada cobrou mais às distribuidoras.

  • Diesel S10: média de R$ 4,04/litro contra R$ 3,74 da Petrobras (diferença de 8%).
  • Gasolina: R$ 3,20/litro frente a R$ 3,00 (alta de 7%).
  • GLP 13 kg: o campeão de disparidade, saindo a R$ 48,12 contra R$ 38,43 — um salto de 25%, ou quase R$ 10 a mais por botijão.

A refinaria responde hoje por cerca de 14% da capacidade nacional de refino, mas domina aproximadamente 80% do abastecimento baiano. Essa concentração regional torna a comparação de preços um termômetro direto do bolso da população local.

Por que a concorrência não baixou o preço?

Para o economista Eric Gil Dantas, autor do estudo, o argumento central da venda — de que a iniciativa privada traria competitividade e redução de custos — não se materializou. Ele aponta uma assimetria estrutural: a Acelen atua apenas no elo do refino, enquanto a Petrobras possui uma cadeia integrada, da extração à bomba.

Essa diferença de porte permite à estatal amortecer choques externos com mais flexibilidade. Quando a tensão geopolítica no Oriente Médio escalou, envolvendo EUA, Israel e Irã, as cotações internacionais dispararam. As refinarias privadas replicaram a alta quase de imediato. A Petrobras, por sua vez, adotou reajustes mais moderados.

O abismo que se abriu nos últimos meses

O efeito da guerra nos preços não foi linear. Segundo o levantamento, a distância entre os valores praticados pelas partes saltou para patamares recordes no cenário recente:

  • Diesel S10: diferença superior a 42%.
  • Gasolina: gap de aproximadamente 32%.
  • Gás de cozinha: disparidade beirando 40%.

O Sindicato das Distribuidoras da Bahia (Sindicom-BA) explica que a formação de preço das privadas espelha rigidamente o mercado internacional (petróleo Brent + câmbio + frete). A Petrobras, por outro lado, utiliza critérios internos que ponderam competitividade e rentabilidade, o que cria uma “desconexão” momentânea entre as tabelas.

O que dizem os protagonistas

Em nota, a Acelen reiterou que sua precificação segue parâmetros de mercado, variando para cima ou para baixo conforme o custo da matéria-prima e o câmbio. A ANP lembrou que, desde 2002, o Brasil adota regime de liberdade de preços, cabendo a cada agente definir seus valores em ambiente concorrencial. A Petrobras, por sua vez, afirmou que sua política busca equilíbrio entre competitividade e retorno ao acionista, sem comentar preços de terceiros.

O que observar daqui para frente

O cenário deixa um alerta ligado para empresários do setor logístico, donos de postos e gestores de frotas na região Nordeste. A dependência de uma única refinaria privada para 80% do supply local cria um risco de concentração: sem alternativas viáveis de arbitragem, o repasse da volatilidade internacional ao consumidor final torna-se quase automático. Monitorar a política de preços da Petrobras nas próximas janelas de reajuste será decisivo para entender se a diferença vai persistir, estreitar ou se inverter — e, com isso, ditar a margem de negociação nas próximas compras de volume.