Conflitos geopolíticos e a volatilidade do petróleo empurraram a mistura de óleos vegetais no diesel para um patamar histórico. Apenas Tailândia, Brasil e Estados Unidos devem consumir 34,3 milhões de toneladas em 2027, mais que o dobro registrado em 2020. O reflexo direto? Pressão no prato do consumidor e uma corrida silenciosa por novas matérias-primas.
O mapa da nova corrida pelo óleo
A Indonésia lidera o movimento com uma mistura de 50% de óleo de palma (B50) desde julho. O país sozinho deve consumir 17,4 milhões de toneladas no próximo ano, contra 7,2 milhões em 2020. A Malásia fixou o teto em 20%, enquanto a Tailândia adotou o mesmo percentual, embora de forma opcional.
No Ocidente, os números também impressionam:
- Brasil: Salto de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas de óleo de soja, se o B16 entrar em vigor em março.
- EUA: Aumento de 5 para 8,1 milhões de toneladas impulsionado por mudanças recentes na política energética.
- União Europeia: Consumo estagnado em 6 milhões de toneladas, funcionando como contrapeso.
Somados, os quatro maiores polos (EUA, Brasil, Tailândia, Indonésia) mais o bloco europeu projetam uma demanda de 40,3 milhões de toneladas.
Soja e palma: os pilares da expansão
Esse apetite voraz sustenta a alta contínua da produção de soja. Nos últimos 15 anos, o uso de óleo de soja para biodiesel explodiu 913% nos Estados Unidos e 383% no Brasil. A resposta do campo foi imediata: a safra global saltou de 261 milhões de toneladas (2010/11) para uma projeção de 443 milhões em 2026/27, segundo o USDA.
O Brasil protagoniza essa expansão. A produção nacional deve triplicar no período, saindo de 75 milhões para 182 milhões de toneladas, de acordo com a Conab. No cenário global de óleos vegetais — hoje em 243 milhões de toneladas —, palma (79 mi) e soja (75 mi) dominam, seguidas por canola e girassol.
O gargalo que atinge a mesa do consumidor
Nem todos ganham com a bonança. A Índia, maior importadora mundial, compra cerca de 16 milhões de toneladas anuais para alimentação. A disputa pelo óleo vegetal entre tanque e prato aperta a oferta interna indiana e eleva os custos globais.
O bolso do brasileiro já sente o efeito. Desde 2020, enquanto a inflação média dos alimentos acumula 73%, o óleo de soja dispara 145%, segundo a Fipe. A conta inclui quebras de safra, estoques mundiais comprimidos e a aceleração das cotações internacionais.
A aposta na macaúba e o que vem pela frente
Diante da limitação de área para soja e palma, a indústria mira alternativas de maior rendimento. A macaúba, nativa do Brasil, promete produzir de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare que a soja, podendo aliviar a pressão por terra no futuro próximo.
Mas o curto prazo exige atenção a três variáveis: a implementação efetiva do B16 no Brasil em março, a manutenção do B50 indonésio e a recuperação dos estoques globais. Qualquer desvio nesses pilares reescreve a equação de preços — tanto no posto quanto no supermercado.
