A EFB Regimes Especiais, liquidante do Banco Master, acionou a Justiça americana para obrigar Martha Graeff, ex-noiva de Daniel Vorcaro, a depor sob juramento e entregar documentos que detalham movimentações financeiras entre 2018 e hoje. A intimação, baseada na Regra 2004 do processo falimentar dos EUA, mira bens, transferências e negócios ligados ao ex-banqueiro e a outras 18 pessoas e empresas.
O depoimento está marcado para 8 de dezembro em Miami, com prazo para entrega de papéis até 30 de novembro. A defesa de Graeff afirma que ela ainda não foi formalmente notificada e que permanece à disposição das autoridades.
O alcance da intimação: 18 nomes e 7 anos de dados
O pedido protocolado no Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida não se limita ao ex-casal. A lista inclui nomes centrais do caso Master, como o delator Antonio Carlos Freixo Júnior, os ex-diretores Maurício Quadrado e Luiz Antonio Bull, além de estruturas offshore como a Titan Capital Holding.
O escopo documental exigido é amplo e cirúrgico:
- Imóveis, veículos, obras de arte, joias e relógios;
- Apólices de seguro, contratos de consignação e venda;
- Extratos bancários e fichas cadastrais;
- Origem e destino de pagamentos feitos a Graeff ou à Graeff Holdings LLC;
- Informações sobre serviços prestados ao “ecossistema Master”.
O liquidante busca rastrear ativos eventualmente ocultos por meio de laranjas, trusts ou empresas de fachada. A mesma estratégia já foi usada contra Bradesco, Itaú e demais parceiros comerciais de Vorcaro.
A empresa misteriosa e a cobertura de US$ 43,9 milhões
Um dos pontos mais sensíveis é a Graeff Holdings LLC, aberta na Flórida em 15 de setembro de 2023. Graeff figura como administradora, mas a legislação local não exige a divulgação dos sócios — o que dificulta saber quem de fato controla o capital.
A intimação foi endereçada a uma cobertura de luxo em Surfside, norte de Miami Beach. O imóvel, comprado por US$ 43,9 milhões, está registrado em nome da G5C Capital Corporation, empresa aberta em Ontário (Canadá) um dia antes da aquisição. Registros públicos não revelam os donos da G5C, nem qualquer vínculo formal com Vorcaro ou o Master.
Jato, trust e mensagens: o rastro que liga Graeff a Vorcaro
O processo nos EUA começou logo após a liquidação do Master pelo Banco Central. Paralelamente, a EFB move ação para reter cerca de US$ 42 milhões da venda de um Gulfstream G700 (prefixo PS-MGG, iniciais de Martha Gonçalves Graeff), alegando que a aeronave foi comprada com recursos do banco.
Mensagens vazadas em abril mostram Vorcaro sugerindo a transferência de bens para o nome da então namorada. Ele negociou a criação de um trust em nome dela meses após fechar a compra de uma mansão na Sabal Palm Road por mais de US$ 85 milhões (cerca de R$ 490 milhões na cotação da época).
À época, Graeff se defendeu publicamente: disse ter sido “arrastada para um lamaçal”, negou investigação formal e afirmou que seu patrimônio não sofreu alterações nos últimos dois anos. “Não ganhei mansão, não ganhei carro, não ganhei barco”, declarou.
O que observar daqui para frente
Se Graeff comparecer à audiência de dezembro, o depoimento sob juramento pode preencher lacunas sobre a engenharia patrimonial usada nos últimos anos. A defesa ainda pode contestar o pedido ou pedir sua anulação, o que alongaria o calendário.
Para investidores e credores, o foco deve permanecer na capacidade da EFB de converter essas informações em recuperação real de ativos — especialmente aqueles blindados em estruturas internacionais de difícil rastreamento. O próximo capítulo depende do que estiver nos extratos e contratos exigidos para 30 de novembro.
