O Banco Central do Paraguai decretou a “resolução” do Ueno Bank nesta terça-feira (3) após o índice de solvência da instituição despencar abaixo do piso regulatório. A medida praticamente sela a liquidação do banco e a transferência de ativos e passivos para outra entidade, deixando 3 milhões de clientes em compasso de espera.
O presidente do BC paraguaio, Carlos Carvallo — que comandou o Ueno até agosto de 2023 — renunciou ao cargo horas depois do anúncio. A decisão expõe um nó político-financeiro que pode respingar no Palácio do Governo e nos títulos soberanos do país.
O gatilho da intervenção e o que acontece agora
A Superintendência de Bancos nomeou auditores para fotografar a posição patrimonial do Ueno na data da resolução. O BC garante depósitos de até US$ 38 mil (cerca de R$ 208 mil) por CPF e classifica o episódio como “caso isolado”, sem contágio sistêmico.
Na prática, a resolução equivale a uma liquidação ordenada: a instituição deixa de operar, suas portas ficam fechadas e um administrador judicial assume a venda de ativos e o pagamento de credores pela ordem de prioridade legal. Correntistas com saldos acima do teto de garantia entram na fila de credores quirografários — ou seja, atrás de trabalhadores, fisco e garantias reais.
Para quem tem dinheiro aplicado no banco, o calendário de pagamentos ainda não foi divulgado. A experiência internacional mostra que o primeiro lote de ressarcimento costuma sair em 30 a 90 dias, mas valores acima do teto podem levar anos.
O elo político que complica o cenário
O presidente Santiago Peña, eleito com discurso pró-mercado, investiu na holding controladora do Ueno até março de 2025. Em 2023, nomeou Carvallo — ex-CEO do banco — para chefiar o Banco Central. A oposição acusa conflito de interesses e já protocolou pedido de impeachment contra Peña e seu vice, embora o Partido Colorado tenha maioria no Congresso para barrar o processo.
Carvallo alega que se declararia impedido de decisões envolvendo o Ueno. Ainda assim, a pressão política forçou sua saída para “acalmar a controvérsia”, nas palavras do próprio. A Procuradoria-Geral pediu abertura de inquérito criminal para apurar a gestão do banco.
De fintech a gigante em tempo recorde: a trajetória do Ueno
Fundado como fintech em 2021, o Ueno obteve licença bancária em tempo recorde e escalou para 3 milhões de clientes — mais de 60% da população adulta paraguaia. O modelo espelha o de Nubank e Monzo: aquisição agressiva via cashback, isenção de tarifas e marketing massivo, incluindo patrocínio da seleção nacional de futebol.
O controle majoritário pertence ao Grupo Vázquez, conglomerado com braços em varejo, agronegócio e mídia. Nos últimos trimestres, reguladores e imprensa apontaram concentração excessiva de crédito em empresas do próprio grupo, o que erosionou a qualidade dos ativos.
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O dinheiro público no meio do furacão
Dados do próprio BC revelam que depósitos do Tesouro no Ueno superavam US$ 850 milhões (R$ 4,66 bilhões) — quase um terço do funding total do banco. O governo Peña minimizou reiteradamente os riscos, mesmo após alertas de analistas independentes sobre alavancagem e governança.
Essa exposição soberana eleva a aposta: se a liquidação gerar prejuízo ao erário, o custo fiscal direto pode pressionar o rating do país. O Paraguai conquistou grau de investimento recentemente e atrai capital brasileiro em infraestrutura, agronegócio e data centers. Qualquer ruído na credibilidade institucional encarece o financiamento externo.
O que investidores e empresários devem monitorar daqui para frente
Três frentes ditam os próximos passos: (1) o relatório dos auditores nomeados pela Superintendência, que definirá o tamanho do buraco patrimonial; (2) a celeridade do BC no pagamento dos depositantes cobertos pelo Fundo Garantidor — atrasos alimentam corrida bancária em instituições menores; (3) a reação dos bondholders soberanos, que já precificam prêmio de risco político nas curvas de juros em dólar.
Para quem opera no corredor Brasil-Paraguai — seja em trade finance, agribusiness ou fintech —, o caso Ueno funciona como stress test real da solidez regulatória do vizinho. Acompanhe os comunicados do Banco Central do Paraguai e da S&P/Fitch nas próximas duas semanas: a classificação de risco do país pode ser revista se a resolução não for limpa e transparente.
