Economia

Raízen dá 3 opções aos credores: uma delas paga só em 2047…

Documento de reestruturação da Raízen com opções de pagamento para credores até 2047
Plano de recuperação extrajudicial da Raízen oferece três alternativas aos credores

A Raízen abriu o prazo para que credores definam como vão receber os R$ 61,4 bilhões reestruturados na recuperação extrajudicial. A escolha é irreversível e deve ser feita até 3 de dezembro. Quem não responder entra automaticamente na opção mais longa: pagamento com 20% de desconto apenas daqui a 23 anos.

O plano, homologado em julho com aprovação de 81,6% dos credores, divide a empresa em duas e prevê aporte bilionário da Shell. Entender cada alternativa é decisivo para proteger o valor do crédito.

As três rotas de pagamento na mesa

A companhia enviou um formulário com três caminhos distintos. A decisão vence às 19h (horário de Brasília) do dia 3 de dezembro para títulos nacionais e 17h (horário de Nova York) para bonds internacionais. Em 10 de dezembro, fecha o prazo para envio de documentos complementares — sem chance de trocar a opção.

  • Opção A (Troca por ativos): Para cada R$ 1,00 de crédito, o credor recebe R$ 0,374 em novas debêntures, R$ 0,176 em dívida da Raízen Energia (nova empresa cindida) e R$ 0,45 em ações da Raízen S.A.
  • Opção B (Deságio e prazo longo): Pagamento de 80% do valor (desconto de 20%) em parcela única no dia 31 de março de 2047. É a alternativa padrão para quem não se manifestar.
  • Opção C (Dinheiro para pequenos): Recebimento de 75% do crédito em espécie, limitado a R$ 9.750 por emissão. O teto global desta modalidade é de R$ 150 milhões. Se a demanda estourar o limite, o excedente migra obrigatoriamente para a Opção A.

O que muda na estrutura da companhia

A reestruturação não é apenas financeira. A cisão aprovada cria duas entidades independentes. A Raízen S.A. assume a distribuição de combustíveis e lubrificantes sob a marca Shell. Já a Raízen Energia concentra a produção e comercialização de etanol, açúcar e bioenergia.

Essa separação impacta diretamente a Opção A, pois o credor passa a ter exposição a dois perfis de risco e geração de caixa distintos. A distribuição de combustíveis tem receita mais recorrente; a vertente de energia agrícola é mais cíclica e sensível a commodities.

O aporte da Shell e a diluição da Cosan

Para viabilizar o plano, a Shell comprometeu um aumento de capital entre R$ 3,5 bilhões e R$ 39,8 bilhões. A amplitude da faixa depende da adesão dos acionistas minoritários e da conversão de dívida em equity.

Rubens Ometto, via fundo Aguassanta, precisará aportar R$ 500 milhões para manter assento no conselho. A Cosan, controladora histórica, verá sua participação diluída. O conselho de administração reúne-se na sexta-feira (6) para deliberar sobre a aprovação final desse aumento de capital.

Por que a Opção B é a “armadilha” do silêncio

O desenho do plano empurra o credor passivo para o cenário mais penalizador no fluxo de caixa. Receber 80% do principal apenas em 2047 significa abrir mão de valor presente significativo, especialmente em ambiente de juros reais positivos.

Não há correção monetária ou juros intermediários previstos para esse período no resumo do plano. O credor que ignorar o formulário aceita, de fato, uma quitação a valor de face depreciado pelo tempo e pela inflação de mais de duas décadas.

O que observar daqui para frente

A adesão à Opção C será um termômetro da liquidez imediata da empresa: se o teto de R$ 150 milhões for atingido rapidamente, sinaliza apetite por caixa vivo e pressão sobre a Opção A. Acompanhe também a assembleia de sexta-feira (6): a definição do valor exato do aporte da Shell ditará o nível de alavancagem das novas entidades e, consequentemente, a atratividade das debêntures e ações ofertadas na Opção A.

Credores internacionais devem ficar atentos ao fuso horário de Nova York para não perder o prazo por diferença de minutos. A decisão é irrevogável; não haverá segunda chance.