O primeiro Boletim Focus após a vitória de Lula trouxe um recado duro do mercado: a conta do novo governo deve ser paga com juros mais altos, inflação persistente e dólar pressionado por anos. A pesquisa divulgada nesta terça-feira (3) captura, pela primeira vez, a precificação do risco fiscal percebido pelos analistas.
A mudança de tom é radical em relação à semana anterior, quando o boletim fechou antes do segundo turno. O que era uma trajetória de alívio virou um cenário de aperto prolongado.
O choque imediato na Selic e o fim dos cortes em dezembro
A projeção para a taxa básica de juros ao final de 2023 subiu de 13,25% para 13,50%. Parece pouco, mas o detalhe está no caminho: os economistas mantiveram a expectativa de corte de 0,25 ponto na reunião do Copom desta quarta (4), mas eliminaram a redução prevista para dezembro.
Ou seja, a Selic deve estacionar nos 13,50% e ficar lá por mais tempo. A sinalização remove o “pivô” que o mercado antecipava para o fim do ano e empurra o início do ciclo de queda consistente para 2024.
Juros altos por mais tempo: a conta de 2027 a 2029
O impacto real não está no curto prazo, mas na curva longa. As estimativas para a Selic terminal subiram em todos os horizontes, sinalizando que o juro neutro da economia foi reprecificado para cima:
- 2027: saltou de 11,75% para 12,50%;
- 2028: subiu de 10,00% para 11,00%;
- 2029: avançou de 10,00% para 10,25%.
Essa elevação sistêmica reflete a desconfiança sobre a trajetória da dívida pública. Se o juro estrutural sobe, o custo de carregar a dívida explode, criando um círculo vicioso que exige ainda mais ajuste fiscal.
Inflação desancorada: a meta virou miragem
Com juros mais altos por mais tempo, a inflação deveria ceder mais rápido, certo? Errado. As projeções do IPCA também deterioraram, indicando que o mercado espera pressões de custos (câmbio e fiscal) que os juros sozinhos não conseguem domar:
- 2023: 5,22% (acima do teto da meta);
- 2027: 4,76%;
- 2028: 4,00%;
- 2029: 3,98%.
Note que, mesmo em 2029, a inflação projetada ainda ronda os 4%, bem acima do centro da meta (3%). O mercado precifica um Banco Central forçado a manter o pé no freio para evitar descontrole, sacrificando crescimento.
Dólar a R$ 5,34 e PIB estagnado: o custo da incerteza
O câmbio reagiu com violência. A projeção para o dólar no fim de 2026 pulou de R$ 5,05 para R$ 5,34 — uma alta de quase 6% em uma semana. Moeda mais cara pressiona a inflação via importados e combustíveis, retroalimentando o ciclo de juros altos.
Do lado real, a atividade econômica paga a conta. O PIB esperado para 2023 caiu de 1,80% para 1,76%. Para 2027, a projeção desabou de 1,31% para 1,20%. O crescimento potencial do Brasil está sendo rebaixado em tempo real.
O que observar daqui para frente
A próxima leitura do Focus será termômetro da credibilidade do anúncio fiscal prometido pela equipe de transição. Se o arcabouço convincente não vier, a curva de juros alonga mais, o dólar testa R$ 5,50 e o PIB de 2024 entra em zona de perigo. Para o investidor e o empresário, a lição é clara: planeje cenários com Selic de dois dígitos até 2026 e câmbio pressionado. O alívio, se vier, depende de caneta, não de otimismo.
