O custo de vida disparou como a principal força motriz nas urnas americanas nesta terça-feira: 48% dos eleitores registrados colocam o bolso acima de qualquer outra pauta. Mas a fatia idêntica de quem vota contra Donald Trump revela um racha que vai muito além da inflação.
A pesquisa Reuters/Ipsos, feita com 1.765 adultos entre 30 de outubro e 2 de novembro, expõe um eleitorado dividido entre a sobrevivência financeira e o julgamento do atual ocupante da Casa Branca. A margem de erro é de três pontos percentuais.
O bolso fala mais alto que a ideologia
Quase metade do eleitorado (48%) cita o custo de vida como fator decisivo. Normas democráticas aparecem em segundo com 26%, enquanto imigração fica em 13%.
O impacto é visceral: 49% das famílias dizem estar pior financeiramente desde janeiro de 2025, quando Trump reassumiu. Entre hispânicos — grupo que se aproximou do Partido Republicano em 2024 —, o pessimismo salta para 54%. Apenas 10% relatam melhora.
O gatilho recente foi a guerra iniciada em fevereiro entre EUA, Israel e Irã, que fez o preço dos combustíveis disparar. A conta chegou no supermercado e na bomba antes de chegar ao debate político.
O referendo invisível sobre Trump
O ex-presidente pediu que apoiadores “finjam que ele está na cédula”. O recado funcionou como espelho: 48% dos votantes tratam a escolha como manifestação contra ele; só 25% assumem voto a favor. Um quarto do eleitorado diz que Trump não pesa na decisão.
Essa dinâmica transforma disputas legislativas locais em plebiscito nacional. Republicanos correm para se distanciar ou abraçar o presidente conforme o distrito; democratas tentam nacionalizar cada corrida.
Guerra no Irã: conta política alta
A justificativa da Casa Branca — impedir armas nucleares iranianas — não convence a maioria. Para 55% dos ouvidos, a ação militar não valeu o custo. Apenas 25% aprovam; 18% não sabem.
A rejeição cruza linhas partidárias e reforça a sensação de instabilidade externa que bate no orçamento doméstico. O preço da gasolina virou símbolo tangível de uma política externa vista como onerosa.
Identidade, tecnologia e a desconfiança do sistema
Três temas emergem como surpresas no levantamento:
- Esportes transgênero: 38% consideram “muito importante” barrar mulheres trans de competições femininas; 25% dizem o mesmo sobre proteger direitos trans.
- Centros de dados de IA: 42% querem limitar a construção dessas instalações — sinal de que infraestrutura tecnológica virou pauta de vizinhança.
- Integridade eleitoral: 77% confiam que seu voto será contado, porém 45% acreditam em fraude generalizada. A contradição alimenta tensão na certificação dos resultados.
O consenso raro: dinheiro grande fora da política
Em meio à polarização, um ponto une o eleitorado: 93% dos democratas e 71% dos republicanos consideram inadequado que bilionários injetem dezenas de milhões em campanhas federais. A regra atual impõe poucas travas a superdoadores.
Cenário para o Congresso: empate técnico de ideias
Leve vantagem democrata nas intenções de voto para o Congresso não se traduz em entusiasmo. Só 43% veem “boas ideias” no Partido Democrata; 39% dizem o mesmo do Republicano. A maioria enxerga o menu partidário como medíocre.
O controle da Câmara e do Senado definirá os dois últimos anos do mandato Trump. Se a insatisfação econômica prevalecer, a oposição pode ampliar maiorias; se o voto anti-Trump mobilizar menos que o esperado, o presidente mantém escudo legislativo.
O que observar nas próximas horas
Acompanhe a certificação nos estados-pêndulo: autoridades temem interferência federal em resultados desfavoráveis. O discurso da Casa Branca sobre “proteger a integridade” será testado na prática. Outro termômetro será a participação hispânica — se o grupo comparecer na proporção de 2024, distritos competitivos no Sudoeste podem virar. Por fim, o preço da gasolina na semana pós-eleição dirá se o mercado acredita em mudança de rota energética ou mais do mesmo.
