O senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos dias após o STF ordenar a entrega de seus passaportes à Polícia Federal. Registros de imigração da Argentina, obtidos em cooperação internacional, expõem uma logística complexa envolvendo duas vans, um ex-oficial de inteligência israelense e o advogado do ex-presidente Jair Bolsonaro. A pergunta que permanece sem resposta: quem financiou a operação?
O comboio na fronteira e os homens da segunda van
Na noite de 27 de outubro, dois veículos cruzaram a ponte da Amizade rumo a Puerto Iguazú. Na primeira van, a família do senador: a esposa Fernanda e as duas filhas. Na segunda, três homens cujos nomes constam nos sistemas migratórios argentinos:
- Menachem Booky Halevy: israelense identificado como ex-oficial de inteligência;
- Roberto Jorge Alexandre: advogado com atuação na defesa de Jair Bolsonaro;
- Neri Luiz Dala Corte: motorista contratado para a travessia.
O advogado Alexandre teve entrada registrada na Argentina no mesmo horário e veículo dos outros dois. Ele também visitou o ex-presidente na Papuda, em Brasília, segundo a investigação.
O israelense detido pela PF em Guarulhos
Halevy entrou no Brasil pelo aeroporto de Guarulhos em 19 de outubro — era sua quarta viagem ao país apenas em 2024. Fotos em redes sociais o mostram ao lado do premiê Benjamin Netanyahu e em feiras de segurança.
Na quinta-feira seguinte à travessia, ao tentar embarcar para Bogotá, ele foi interceptado pela Polícia Federal e prestou depoimento. Liberado, comprou nova passagem para os EUA. O advogado Roberto Jorge Alexandre estava no mesmo voo para a Colômbia, mas embarcou normalmente.
Motorista nega ter visto a família; jornalista relata escolta oficial
Encontrado pela reportagem, Neri Luiz Dala Corte afirmou ter sido contratado apenas para buscar “duas pessoas” em um posto em Foz do Iguaçu e levá-las ao aeroporto argentino. “Eu levei duas pessoas que eu nem sei quem é”, disse.
O jornalista argentino Nicolás Munafó, presente no local, confirma a versão de que o motorista negou transportar o senador. Munafó acrescenta um detalhe sensível: a comitiva era acompanhada por veículos oficiais argentinos, incluindo uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária e outro carro com placa diplomática.
A rota aérea: jato de R$ 800 mil e escalas estratégicas
Segundo o empresário Luis Grande, dono da Baires Fly, o trecho final foi feito em um Gulfstream G400 (prefixo LV-JQW). O custo: US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil na cotação atual).
A aeronave partiu de Puerto Iguazú na manhã de 28 de outubro, fez escala técnica em Guayaquil (Equador) para reabastecimento e pousou no aeroporto executivo de Opa-Locka, na região de Miami. Grande afirma que o pagamento partiu de uma conta empresarial nos EUA, via intermediário do setor de aviação, mas desconhece o contratante final.
Conexões políticas e versões contraditórias
O advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio e investigado no STF junto ao senador por suspeita de lavagem de dinheiro em apostas, teria cedido um jato (prefixo PR-AAA) para a etapa Brasília–Buenos Aires, segundo uma das linhas de apuração. Tomaz nega veementemente o uso de suas aeronaves.
Do lado americano, a imprensa aponta Jason Miller, assessor de Donald Trump, como articulador da entrada nos EUA. Flávio e o irmão Eduardo já haviam se encontrado com Miller anteriormente. O secretário de Estado Marco Rubio, contudo, negou qualquer participação do governo norte-americano: “Não facilitamos nada”.
O que observar daqui para frente
A investigação segue aberta no Brasil e na Argentina. Dois pontos centrais devem ditar os próximos capítulos: a identificação do pagador da viagem internacional — o que pode configurar crime de lavagem ou favorecimento pessoal — e o depoimento formal de Menachem Halevy às autoridades brasileiras, já que ele está em solo americano. A defesa de Flávio Bolsonaro, representada por Frederick Wassef, classifica a narrativa de “fuga” como inverídica e sustenta que nenhuma informação oficial foi confirmada.
