A Jaguar Land Rover encerrou a produção nacional e não vende mais nada abaixo de R$ 700 mil no país. O primeiro movimento da nova fase é um Range Rover Sport híbrido plug-in de R$ 1,06 milhão. A pergunta que fica: a estratégia de volume zero compensa?
O fim da linha em Itatiaia
Em 2024, a fábrica de Itatiaia (RJ) parou de montar Evoque e Discovery Sport. A unidade, aberta em 2016 com expectativa de 24 mil unidades anuais, nunca passou de 5 mil. Sem modelos de entrada, o ticket médio da marca salta para a casa dos sete dígitos.
Não houve demissões em massa, mas o destino do parque industrial já está encaminhado. Negociações avançadas colocam a chinesa Chery como compradora para produzir Omoda, Jaecoo e iCar no local.
O produto que inaugura a era “apenas importados”
O Range Rover Sport Dynamic chega com motor 3.0 de seis cilindros em linha mais sistema plug-in. São 550 cv combinados, zero a 100 km/h em 4,9 segundos e até 70 km no modo 100% elétrico. A bateria recarrega na tomada.
No Circuito Panamericano (Elias Fausto/SP), a suspensão ativa disfarçou os 2.500 kg em curvas molhadas. O comportamento dinâmico segue como referência, mas o pacote tecnológico começa a envelhecer.
Onde a concorrência já passou à frente
Lançado em maio de 2022, o Sport não acompanhou a renovação dos rivais diretos:
- Porsche Cayenne: nova geração com telas integradas, conectividade superior e opções híbridas/elétricas de alto desempenho
- Marcas chinesas premium: utilitários com desempenho equivalente por menos da metade do preço
A cabine mantém o padrão — 15 alto-falantes, bancos com ajustes milimétricos, materiais e cheiro inconfundíveis. Ainda é o benchmark de luxo a bordo. Só que luxo sozinho não segura cliente que exige tecnologia de 2024.
O cálculo por trás do reposicionamento
A JLR aposta em margens maiores com volumes menores. A equação faz sentido no papel: menos unidades, menos estrutura, menos desconto. O risco é perder relevância num mercado onde chineses avançam rápido em imagem e alemães renovam ciclos de produto em tempo recorde.
O próximo Cayenne elétrico e os novos Audi Q8 e-tron chegam ao Brasil ainda neste ciclo. Sem resposta no mesmo prazo, a marca britânica corre o risco de virar nicho de nicho.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis vão ditar se a estratégia funciona: velocidade de lançamento da nova geração do Range Rover Sport (esperada para 2025/26 no exterior), aceitação do portfólio puramente importado acima de R$ 700 mil e o desfecho da venda de Itatiaia — que pode injetar capital ou apenas fechar um ciclo deficitário. Para o investidor ou empresário do setor, o termômetro é a participação de mercado no segmento acima de R$ 500 mil nos próximos balanços trimestrais.
