Meio Ambiente

Amazonas: 5 anos, 4 crises extremas e um prejuízo que passa de R$ 600 milhões

Rio Amazonas seco com terra rachada e fumaça de queimadas ao fundo, ilustra crise climática extrema no estado
A seca histórica e as queimadas de 2024 deixam o leito do Rio Amazonas exposto, simbolizando o ciclo de emergências climáticas no estado.

O Amazonas vive um ciclo de emergências climáticas e sanitárias que se repetem com intervalos cada vez menores. Desde 2021, o estado enfrentou colapso de oxigênio na pandemia, a maior cheia da história, duas secas recordes consecutivas e uma onda de queimadas que transformou a qualidade do ar em risco à saúde. O custo econômico só de 2024 supera R$ 600 milhões.

O padrão não é coincidência: eventos extremos antes espaçados por décadas agora ocorrem quase anualmente. Entender essa sequência é essencial para quem investe, opera ou planeja logística na região.

O colapso que expôs a fragilidade logística

Em janeiro de 2021, Manaus consumia 76,5 mil metros cúbicos de oxigênio por dia. A produção local não passava de 28,2 mil. O déficit forçou a transferência de mais de 500 pacientes para outros estados e gerou uma disputa judicial que pede R$ 4 bilhões em indenizações contra União, estado e município.

A crise revelou um gargalo: a dependência de insumos transportados por via aérea ou fluvial em um território onde a navegação pode ser interrompida tanto por cheias quanto por secas.

Cinco meses depois, o rio subiu como nunca

Junho de 2021. O Rio Negro marcou 30,02 metros — o maior nível em 119 anos de medições. Mais de 455 mil pessoas afetadas. No centro de Manaus, a água invadiu a Praça do Relógio e o prédio da Alfândega. A feira Manaus Moderna migrou para estrutura flutuante. Foram improvisados 13 mil metros de passarelas de madeira para garantir circulação.

O episódio mostrou como a infraestrutura urbana não estava preparada para amplitudes hidrológicas extremas.

Da enchente para a seca histórica em 28 meses

Outubro de 2023. O mesmo Rio Negro caiu para 13,59 metros, menor nível em 121 anos. Todos os 62 municípios decretaram emergência. Mais de 600 mil pessoas impactadas. Escolas rurais pararam. A praia da Ponta Negra fechou. Em Beruri, o fenômeno de “terras caídas” — desmoronamento de margens — destruiu comunidades ribeirinhas.

Manaus registrou 39,2 °C em 2 de outubro, uma das temperaturas mais altas da série histórica.

2024: recorde quebrado, prejuízo contabilizado

A estiagem de 2024 foi ainda mais severa. O Rio Negro atingiu 12,11 metros em outubro, novo piso histórico. O número de afetados saltou para 800 mil. Os prejuízos econômicos estimados ultrapassaram R$ 600 milhões.

O cenário seco alimentou incêndios: mais de 25 mil focos de queimadas no ano, o maior volume em 26 anos, segundo o Inpe. A fumaça cobriu Manaus em múltiplos episódios, agravando doenças respiratórias em crianças, idosos e pacientes crônicos.

2026: a fumaça volta e o isolamento recrudesce

Entre setembro e outubro de 2026, a qualidade do ar em Manaus e na Região Metropolitana oscilou entre “ruim” e “perigoso”, com alta concentração de partículas finas. Aulas suspensas, eventos cancelados, aumento de atendimentos respiratórios nas unidades de saúde.

Paralelamente, o baixo nível dos rios isolou mais de 600 comunidades no interior. Acidentes fluviais causaram perda de medicamentos e cilindros de oxigênio. O governo decretou emergência em saúde pública por 180 dias para organizar alternativas de transporte e garantir insumos essenciais.

O que os números revelam sobre o novo normal

  • Intervalo entre crises: passou de décadas para meses
  • População afetada: cresceu de 455 mil (cheia 2021) para 800 mil (seca 2024)
  • Queimadas: salto para 25 mil focos/ano (recorde de 26 anos)
  • Prejuízo direto 2024: > R$ 600 milhões
  • Ação judicial em andamento: R$ 4 bilhões pedidos por omissão na crise do oxigênio

Cada evento pressiona a mesma estrutura: transporte fluvial, abastecimento de saúde, rede elétrica, educação no interior e qualidade do ar nas cidades.

O que observar daqui para frente

O ciclo hidrológico do Amazonas entrou em faixa de variabilidade extrema. Para quem opera na região — seja na indústria, no agronegócio, na logística ou no setor público —, o planejamento precisa incorporar cenários de cheia e seca recordes como base, não como exceção.

Monitorar o nível do Rio Negro a partir de maio, a evolução de focos de calor no Inpe e os decretos de emergência municipais passou a ser indicador antecedente de risco operacional e financeiro. A capacidade de resposta do poder público, testada cinco vezes em cinco anos, continuará ditando a velocidade de recuperação de cada novo choque.