O PT não vencia na capital fluminense desde 2014. Em outubro passado, o partido não apenas ganhou — dominou todas as zonas eleitorais, inclusive redutos onde o bolsonarismo parecia inabalável. A virada tem números, nomes e um movimento de rua que começou longe dos holofotes.
Durante anos, a zombaria era recorrente: petistas só existiam na praça São Salvador, em Laranjeiras, único bairro onde Jair Bolsonaro perdeu em 2018. O enclave resistiu, expandiu e, oito anos depois, engoliu a cidade inteira.
O salto que ninguém previu nas urnas
Entre o primeiro e o segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva subiu 7,63 pontos percentuais no município do Rio. O avanço ocorreu em todas as zonas eleitorais sem exceção. A zona sul, o centro, a Grande Tijuca e até a ilha de Paquetá — rebatizada de “ilha Vermelha” nas redes — viraram petistas.
Na 16ª zona eleitoral, que cobre Glória, Catete, Santa Teresa e Laranjeiras, o presidente cravou 64,17% dos votos válidos. Mas o dado mais espantoso veio da zona oeste, área populosa e historicamente dominada por milícias, onde Lula também cresceu.
São Gonçalo: o termômetro que ferveu
Segundo maior colégio eleitoral do estado, São Gonçalo era considerado território blindado. Berço do vereador Douglas Ruas, figura ligada ao bolsonarismo, o município entregou 48,02% dos votos a Lula contra 51,98% ao adversário. A margem de menos de quatro pontos chocou estrategistas dos dois lados.
Vizinha de Niterói, a cidade foi palco de um levante estudantil que ganhou as ruas semanas antes da votação. Jovens ocuparam praças, organizaram carreatas e viralizaram nas redes. O movimento, batizado informalmente de “Exército do Lula”, funcionou como gatilho para a mobilização nacional.
- 48,02% dos votos válidos para Lula em São Gonçalo
- 51,98% para o candidato adversário
- Margem de 3,96 pontos — a menor da região metropolitana
O governador, o senador e a briga no STF
Douglas Ruas sentiu o baque nas urnas. Eleito governador após a anulação dos votos de Anthony Garotinho, havia feito campanha com discurso quase separatista, opondo interior à capital. Agora, promete governar para todos.
Nos bastidores, aliados defendem que Flávio Bolsonaro perca influência no Palácio Guanabara. A tensão escalou para o Supremo Tribunal Federal: cresce um movimento pela realização de segundo turno no Rio de Janeiro, tema de ação judicial em andamento. A campanha já migrou para as redes sociais, replicando o modelo de mobilização digital que impulsionou Lula.
Observadores consideram improvável que o STF, já pressionado por outras frentes, compre essa briga institucional no curto prazo.
O que observar nos próximos meses
A reconfiguração do mapa eleitoral fluminense não é episódio isolado. Sinaliza uma reestruturação das bases políticas no estado que, até 2022, era o principal celeiro de votos do bolsonarismo. Três variáveis merecem acompanhamento:
- Desdobramento da ação no STF sobre segundo turno estadual
- Relação entre o governo estadual e a bancada federal bolsonarista
- Capacidade de mobilização das redes estudantis que nasceram em São Gonçalo
Para empresários e investidores, o recado é claro: o Rio de Janeiro deixou de ser laboratório único de uma única força política. O novo cenário exige leitura atenta das alianças locais, das pautas municipais e da força das ruas — que, pela primeira vez em anos, não seguem um único comando.
